8.7.17

Namíbia

Escrevi isto durante uma escala de dezassete horas em Angola. Estava a desesperar. Nem enfiei aqui. Às vezes acontece.
... 




(desculpem o tipo de letra, acabei de beber três cervejas)

Élou.
Estou no aeroporto de Luanda. Venho do Moçambique, fui lá passar o natal e os dias à volta, e vou para a Madragoa. Mas vou escrever sobre o verão. O meu, não a estação do ano. Nem toda a gente sabe o que fiz no verão passado.
Há uns quatro ou cinco anos, os meus pais, aqueles que não pude escolher, mudaram-se para Maputo, que é uma cidade na parte pobre do mundo. São velhos e nunca comeram vegetais então estão acabados, chechés, e, em vez de se inscreverem na hidroginástica, de comprarem o bilhete de época do centro de saúde e de coleccionarem o folheto do Pinho Doce, deu-lhes para isto, foram morar para um sítio com pó. Dizem que estavam fartos de me aturar, mas isso é pouco provável, eu sou adorável.

Éniuei, no meu verão, como já tinha mudado a água aos peixes, decidi visitá-los, dar-lhes uma alegria e ver o que lá tenho de herança. Sou filho único, é tudo para mim, convém ir controlando o património. Mas, espertalhão, comprei uma viagem de dois meses e tal e disse-lhes que só ia três semanas. Estive uns dias com eles no início e deixei mais alguns para o fim. No meio, tinha de pendurar cortinados, expliquei. Eles alertaram-me para que alguém segurasse no escadote e continuaram a matar mosquitos, a esvaziar o Baygon.
Durante esses primeiros dias tive a ajuda da minha prima Paula para os aturar. Vimos vacas estranhas em reservas na África do Sul e na Suazilândia e, depois, no Moçambique, comemos camarões e fomos ao mar, mesmo sendo inverno - à turista. Faltou-nos tirar selfies com crianças descalças para meter no facebook, mas trato disso mais tarde. São tão queridas, sem sapatinhos. Não vou escrever mais sobre o Moçambique porque arrisco-me a dizer bem daquilo e deixar a família contente. É escusado.
Quando larguei a prima e calcei as sandálias, fui para a Namíbia. É para lá que se vai.

A Namíbia é um país. Quando ainda era outra coisa, em 1400 e muito, uns marinheiros portugueses espetaram lá padrões, porque ainda não tinham inventado as tais selfies, e quatrocentos anos depois tornou-se uma colónia alemã. A seguir à primeira grande guerra passou a ser gerida pela África do Sul, que a acabou por anexar. Gostaram muito do sítio. Era arejado, bom para apanhar diamantes e para brincar ao apartheid.

Após anos de negociações e pancada, tornou-se independente, em 1990, ao som do hit do ano Nothing compares to you, e os seus habitantes viveram felizes para todo o sempre. No primeiro discurso à nação, o novo presidente, o Samuel, em voz doce, emocionado, cantou "Since they've been gone we can do whatever we want", claramente imitando a Sinead, e decretou que, a partir desse dia, as batatas fritas seriam grátis. Ninguém esperava, foi a pu@#€#@ta da loucura.

Não acreditem em tudo o que escrevo, por favor.
É melhor deixar o aviso. Se os autores das bíblias e dos corões tivessem perdido cinco segundos para escrever isto, as chatices que se evitavam. Os meus país estão mesmo acabadinhos. Essa parte é verdade.

Na realidade, nem todas pessoas na Namíbia parecem felizes da vida. Algumas precisam de um abraço. Nota-se. Talvez porque ainda sentem os efeitos de muitos anos de segregação ou porque o preço do ketchup quase triplicou para compensar a oferta das batatas, o que é fácil de perceber é que as condições de vida não são iguais para todos, a alegria não foi bem distribuída. As pessoas que nascem mais pálidas, que são a minoria, vivem melhor, com as carteiras mais cheias e em casas com bonitas vedações electrificadas. Em Windhoek, a capital, é ridículo, tudo dá choque, um gajo não se pode encostar a muro nenhum.

Não vou fingir que sei gerir um país, ainda por cima um país africano, já me basta ser o maior a hipnotizar carpas, mas, com uma população de 2,1 milhões que tropeçam em diamantes, aposto que a vida podia ser um pouco melhor para todos. No mínimo, o ketchup podia ser subsidiado.


Quando os alemães se instalaram no sul do país, perto de Luderitz, apanhavam os diamantes do chão, não precisavam de escavar. Exportaram centenas de quilos. Nas noites de luar, o chão imitava o céu estrelado. Conta-se. Actualmente, uma grande parte do território do país está completamente fechado para evitar que a malta entre com uma vassoura e faça a limpeza. Trouxe os bolsos cheios de pedras, claro. No aeroporto expliquei que eram para o lastro do avião, e que os líquidos, o champôm e o colgueite, estavam no saquito de plástico transparente. Deixaram-me passar. As pedras mais brilhantes escondi onde nada brilha, se é que me entendem. Depois, esqueci-me e perdi-as, se é que me entendem.

O Luís Represas é chato.
Comparada com todos os vizinhos, a Namíbia não está mal. Vi muitos pobres mas são não aos milhões, como é normal por estas bandas. Também não se vêem bandos de ricos. Não se vê ninguém, na realidade. A Namíbia tem a população da grande Lisboa espalhada pela França e Inglaterra. É o país com menor densidade populacional no universo conhecido - 2,5 pessoas por quilómetro quadrado, poucochinho quando comparado com Macau, para onde fui logo a seguir, com 18000. Não há gente. É um absurdo. Por exemplo, em Keetmanshoop, "a capital do sul", só me apareceu uma pessoa no Tinder. Uma. Pesquisei num raio de 100 milhas, que são uma data de quilómetros, e nada. Ou melhor, só uma. Não deu match. Estúpida. Queria ver o Adão safar-se com online dating.

Sonhava ter longas conversas românticas ao luar sem perceber nada, mas nada feito. A língua oficial é o inglês, mas a maioria decide ignora-la porque as línguas nativas têm mais piada, então esperava ouvir a Eva de Keetmanshoop falar-me em nama, com estalinhos e cliques e barulhos estranhos, horas a fio, e eu, feliz, respondia mascando e fazendo bolinhas com uma chiclete de morango. Pena, porque a lua da Namíbia é muito maior do que as outras.
Mais tarde, num café, estava a mascar a chiclete que tinha guardado para a Estúpida e trouxeram-me uma coca-cola. Devolvi, claro. Não bebo coca-cola, faz mal a alma. Nem com três pedras de gelo e meia rodela de limão, como insistiram que tinha pedido.

Por causa dessa falta de gente, há poucos transportes públicos. Não há público. Além disso, uma boa parte deles, os maiores, são nocturnos. À noite estou na cama. Só faz sentido fazer estas viagens longas se for com os olhos na estrada, a ver a paisagem. Caso contrário, voava.
A forma mais simples de viajar na Namíbia é alugar um carro (na África do Sul, é mais barato) ou ir num tour organizado. Como fiz, à boleia e em autocarros cansados, não foi fácil e não vi tudo o que os turistas lá vão procurar, mas saí sem sentir falta de nada. Fiz centenas de quilómetros em caixas de carrinhas pickup, a ver passar deserto e mais deserto; andei em táxis partilhados na costa dos esqueletos, com os olhos nas dunas e de queixo caído, com pessoas com o mesmo ar aborrecido que vemos do metro de Lisboa; e bati o meu recorde de velocidade numa Hiace de 30 anos - 145Km/h e 21 passageiros aos gritos de pânico e excitação. Lindo.

Num autocarro, depois de 8 horas sem me encostar porque o banco estava partido, o motorista deixou-me no meio de nada e deu-me um número de telefone - "Call this guy to go to town". I called e esperei, sentado, sozinho, armado com o corta unhas, no escuro e no frio. As noites no deserto gelam. Tanto frio que a camisola interior ficou gasta na zona dos mamilos. Horrível. Até que chegou o carro, só com um farol ligado, com um gajo de fato treino ao volante e a Celine Dion aos berros no rádio. Achei que o meu coração parava de medo. Ensinaram-me em pequeno para nunca confiar em adultos que andam de fato de treino. Nem em gajos de risco ao meio, mas não era o caso, o senhor tinha carapinha. Entrei e acho que desmaiei. Pelo menos, não me lembro dos primeiros 5 a 10 minutos da viagem. Quando reanimei, já ao som da Mariah Carey, percebi que o pobre homem, o Simon, estava de pijama, e eu, o Pedro, tinha-o tirado da cama. É sempre assim, nunca passamos de turistas com a mania que tudo é uma grande aventura. Uma aventura tão grande e perigosa que ele nem se deu ao trabalho tirar o pijama. Perigoso é ir a uma repartição de finanças. Aí não há coração que aguente.
Voltei a encontrar o Simon e a Celine nos dias seguintes, e a ouvi-lo gozar vezes sem conta com o meu ar maricas daquela noite. "What a pussy!". Não me importei nada. A verdade é que quando deixar de ser a pussy, passear assim não terá tanta piada.
No fim, levou-me a outro autocarro, direito à África do Sul, e voei para China, onde apanhei mais autocarros para lugares incríveis, que mesmo que me recordasse agora dos nomes, nunca conseguiria escrever.

Não parei durante um belo mês, até reencontrar os meus pais que só queriam saber a cor dos cortinados.

beijos

23.2.15

do cairo a harar



Ora viva,

Não estou de muitas conversas, isto vai ser curto.
Acabou a vadiagem. Faltam umas horas para voar, ainda posso ser atropelado, mas até agora correu tudo bem. Houve alturas mais difíceis, encontrei algumas pessoas parvas e saí morto de muitos autocarros, mas, como sempre, lava-se bem a cara e passa, esquece-se tudo, a viagem continua. 
Foram dois meses óptimos, principalmente os dias no Sudão, a terra estranha onde todos os homens se agacham para rezar e urinar. Dois meses que pareceram seis, porque aqui os dias demoram a passar, as semanas não acabam.
Na quinta-feira, em Harar, onde a Etiópia se encosta à Somália, fui atacado por um milhafre que quase me levou o telefone e dois dedos; chamei hienas numa lixeira e dei-lhes carne de camelo; enxotei bandos de espertalhões demasiado interessados no que tinha nos bolsos; apenas andei em carros com mais de quarenta anos, porque todos taxis são Peugeots 404, que deixaram de ser produzidos em 75; bebi canecas de cerveja por €0,40 com cristãos e muçulmanos na mesma mesa e nunca falámos de deus; passei a noite sentado na cama, com a luz acesa, para não ser comido pelos mesmos insectos da noite anterior; e, durante dez horas, fui esmagado por vinte e duas pessoas numa Toyota Hiace que preferia sempre o lado da estrada onde havia um precipício, talvez para ver melhor a paisagem.
Há uma bela música em que o Dylan diz que "o tempo passa devagar quando estamos perdidos num sonho", mas a verdade é que não tenho imaginação para sonhar com dias assim, tão cheios, tão longos. Preciso mesmo cá vir.
Não me importava que o avião se perdesse e aterrasse outra vez longe de casa, mas nem eu tenho tanta sorte. 
Beijocas.

31.1.15

o sudão



Buongiorno principessas, 

Estou em Cartum, a única capital da República do Sudão. É inverno e está um calor dos tomates. 
Sei que alguns acham desnecessário, deselegante, começar assim o texto, mas estou tão contente por poder usar a minha expressão preferida - calor dos tomates-, numa das duas variantes, que não resisto. Sou fraco, e pouco elegante. Se calhar é asneira, mas fica assim.

Estão 38 graus à sombra, por exemplo, de um prédio.

Depois do Cairo,  passei 4 dias em Dahab, uma cidade pequena na península de Sinai, onde vi um aquário gigante quando enfiei a cabeça no mar e onde senti o cheiro a dinheiro da Arábia Saudita, a 16 quilómetros, do outro lado do golfo de Aqaba. Cheirava a gasóile. Há outros dinheiros com outros cheiros.

A seguir, fui para Assuão, no sul do Egipto, junto ao Nilo, que é uma coisa tipo o Guadiana mas que se desloca em sentido contrário. Para minha alegria, Assuão continua com uma bela frota de táxis e mal tirei os pés do comboio, enfiei-os num Peugeot 504 bem bonito.

Desde a revolução de 2011, os turistas fugiram para países com menos noticias nos jornais e estas cidades perderam a sua principal receita, estão decandentes e tristes, principalmente Dahab.

A passagem entre Egipto e o Sudão está, deste há pouco mais de um ano, mais fácil. Em vez do barco semanal, onde viajei há 3 anos, agora há autocarros diários e a viagem é mais cómoda e rápida, apesar de ter demorado 14 horas em vez das 5 anunciadas - é um Bem-vindo a África. Ainda se cruza o lago, só para matar saudades, e, apesar do óptimo aspecto exterior, o autocarro vai cheio até ao tecto, como ia o barco.

O Sudão.

Quando anunciei que vinha ao Sudão, a reacção geral foi "uuuuhhhh cuidado" e um olhar como se o mundo, o meu, acabasse. Algumas pessoas chegaram perguntar se podiam herdar as minhas guitarras. Uma amiga, a Carla (nome fictício), até teve um mau pressentimento em relação a esta viagem e anda muito preocupada. Tem estes pressentimentos desde criança, é a sério. Curiosamente, oferece-me sempre um bilhete de lotaria no aniversário e nunca vi um chavo. Também os tenho, os pressentimentos, ou algo parecido. É verdade. São estranhos. São para daqui a 400 anos, não servem para nada. Coincidência, estou a "receber" um. Aqui está: No ano 2415, por volta das 3 da tarde, um arqueólogo vai escavar a sepultura do Álvaro Cunhal e morrerá subitamente com um ataque cardíaco. Morrerá de susto, por ver uma caveira com sobrancelhas. Era só isto. Percebem porque é que digo que este dom não serve para nada? Mal não faz, mas é inútil.
Adiante.
Onde eu queria chegar é que a imagem generalizada que se tem do Sudão é errada, é falsa. Com maus pressentimentos ou sem eles, viajar aqui é dificil e as probabilidades de ter um acidente ou apanhar uma doença horrível é, como em qualquer país muito pobre, maior do que no nosso cantinho. Mas, e esta é a parte importante, se acontecer, ainda bem que é aqui porque me ajudam de certeza. Estes gajos são porreiros (foi o melhor que consegui - gajos porreiros. parou o cérebro). Pronto, são sérios, simpáticos e simples. Têm os 3 's'. Não posso dizer o mesmo em relação a muitos sítios onde passei. Muitos sítios ricos.
E, para um visitante, é seguro. É impossível viajar para as zonas de conflito e a criminalidade é muito baixa. Isso sente-se, e é um enorme peso que não se carrega na mochila. 

Mais. É um país muçulmano muito conservador, mas é ignorante associar o povo sudanês com terrorismo ou radicalismos islâmicos. Estas pessoas têm de trabalhar muito para comer, não têm tempo para andar a correr atrás de infiéis, isso é um desporto de ricos. Há desses ricos aqui, assim como em Paris, por exemplo, e ninguém deixa de visitar a torre porque tem medo deles. 
Como em todo o lado, não é tudo preto ou branco. Os dois homens com quem divido o quarto, um veterinário e um que não fala inglês, juntam-se com amigos e bebem sumo de romã fermentado. Chamam-lhe "cherbot", e é péssimo. Bebem às escondidas, como miúdos, com o sorriso maroto de quem está a fazer o que não deve, porque aqui é proibida a posse e o consumo de álcool. E rezam várias vezes ao dia, como bons muçulmanos, mesmo ao fundo da minha cama, a centímetros dos meus pés. Têm tanta paciência para fundamentalismos como eu, não o podem é dizer muito alto. Esse é o problema. Liberdade de expressão, liberdades, nicles batatóides.

Para os turistas é o mesmo. Há regras, muitas, há registos obrigatórios na polícia, licenças para viajar, para fotografar, e quem não as cumpre vai preso. Vai mesmo.
Os senhores que têm o poder não o querem perder, e isso significa controlar tudo e todos. E depois exercem-no à bruta para não terem chatices no futuro. 
Sem esses tipos não seria um país ideal, entre outras coisas, tem o termóstato partido e igualdade de género e de culto é uma anedota, mas seria muito melhor. 
Às vezes penso assim. Imagino como ficariam os países se lhes alterasse algumas características próprias. Por exemplo, imagino sempre o Brasil sem brasileiros, com outros gajos. Era perfeito. É recorrente sonhar com Pedro Álvares Cabral a chegar agora às Américas e ouvir da praia "Oi galera, tudo jóia?", e rapidamente gritar para a tripulação "Dar a volta, vamos embora, esta fica para Castela". Depois virar-se para terra, "Caravela, burro!"........ "Oi?". É um sonho, claro.
Enfim, o mundo é como é, e é interessante por isso.


Isto já vai demasiado longo. Segundo a Carla, é provável que não volte a escrever, então tinha de deixar o último sermão.

Se alguma vez sonharam dizer "Desculpe, tenho de ligar urgentemente para o Sudão", força, +259 992815486, é o meu número sudanês (nunca imaginei que diria isto na vida). Atendo sempre com "Salamalecum?".

Espero que esteja tudo bem na terrinha. E, mesmo que o tempo esteja cinzento, muita chuva e um frio dos tomates, alegrem-se, o Bob Dylan tem um disco novo.
Vou fazer uma mise. 
Beijinhos




6.1.15

egipto, outra vez



Olá da terra onde os gatos são sagrados.

Voltei. Estive aqui há três anos, quando desci até ao Cabo, e o plano é o mesmo, mas o orçamento não, apertou. Devo descer o Egipto, o Sudão, chegar à Etiópia, e depois se vê. Se poupar muito e roubar alguém, talvez vá até lá abaixo. A viajar não é importante saber onde acabo, qual o destino, o interessante é o caminho para lá chegar. É como a vida. (Tumba! Lições de vida do Pedrinho - Compilação das frases mais bonitas, Vol 2)

O Cairo continua velho e castanho, coberto de pó e fumo, maravilhoso. Há outras cidades muito feias, como Jacarta e Chennai, mas não têm piada. O Cairo tem-na toda, é um feio com charme. É como se o propósito das 20 milhões de pessoas que cá moram fosse garantir que a cidade fica bem ao lado das pirâmides, que tudo pareça pertencer à mesma época. Eles fazem-no bem, com pinta. E continua confuso e barulhento. Quando acordo e oiço as constantes buzinas, o primeiro pensamento é que o Benfica ganhou o campeonato outra vez. Sempre, não falha. 
O pior é que se vê cada vez menos Peugeots 504, a minha viatura favorita de todo sempre, aos poucos substituídos por carros coreanos todos iguais, que, julgo, são oferecidos quando se compra um telemóvel. Chegava a apanhar taxis 504 só para dar uma volta. Havia tantos. Agora, anda-se de Samsung. 
Vou ficar mais uns dias, depois é para sul.

Descer África, por terra, em transportes maus e com alojamentos piores, onde não se encontram daquelas pessoas que se cumprimentam só com um beijinho, foi uma das coisas mais difíceis que fiz, foi uma brutalidade, mas valeu a pena. A outra coisa foi passar a ferro três camisas, que acabaram na 5àSec. Então, custou tomar a decisão, fazer a mala e partir. 
Se da primeira vez tive medo por não saber o que ia encontrar, agora tenho porque sei. Estou a falar, principalmente, das aranhas africanas, claro. Daquelas gordas que não morrem com o normal golpe de chinelo. Estúpidas. O pior é à noite. Já partilhei o quarto com baratas, ratos do tamanho dum palmo e pessoas bem feinhas, e, depois de fechar a luz, acabo sempre por dormir. Se aparece uma aranha peluda no tecto e se esconde antes de lhe atirar uma cadeira, é o fim, nem com o Vitinho. Uma vez, desisti, fui para o bar do hotel e adormeci bebedo ao balcão. Acordei já era dia, foi óptimo. E não fui o único. Pelos vistos há mais gente com pavor a aranhas. Bicho do demónio. 
Mas, desta vez, vai ser fácil. É a segunda. Lembro-me onde os autocarros param, lembro-me das fronteiras, das terras e zonas complicadas. Desta vez não vou ter histórias para contar, nada de confusões, apanho a auto-estrada. Não há aranhas na auto-estrada. A minha mãe, que tem 82 anos, não tem nada com que se preocupar. Ouviste? 
É mais fácil, também, porque devo encontrar a internet em qualquer canto. Graças a Deus, o wifi e os smartphones espalham-se mais rápido do que a palavra do Senhor, então posso mandar uma mensagem rápida quando preciso de partilhar, por exemplo, que as varejeiras dão luta a passar na garganta, arranham, assunto que normalmente não interessa a com quem me cruzo. Aqui, quando alguém sabe inglês, falo do Ronaldo e do Mourinho, de bola. É muito tempo sozinho e estás tretas novas ajudam. Mas é um sozinho diferente, africano, sem dramas. Vou explicar com uma história, e acabar, já vai longo.

Da última vez, no sul da Etiópia, naquela zona onde as pessoas só conhecem uma marca de arroz, o carolino USAID, apanhei um autocarro apertado durante 20 horas. Arrancou e, como no metro, meti os olhos na paisagem e a música nos ouvidos. Mas, uns minutos depois, a curiosidade do tipo do lado rebentou e passei-lhe os auscultadores. Passei também ao tipo de trás, ao da frente e ao pendurado na porta. Quando cada auscultador já tinha cera suficiente para envergonhar Fátima no 13 de Maio, decidimos partilhar aquilo com todos. Braço no ar, telemóvel no máximo e pouco paleio. Andava a ouvir o El Camino, dos Black Keys, que tinha semanas, e tocou umas 4 o 5 vezes, o suficiente para metade do autocarro me conseguir acompanhar quando cantava "I'm a lonely boy, I'm a lonely boy,...". Nessa altura, mesmo não podendo partilhar esta ramboia toda com ninguém (nem nos dias seguintes), a letra da música não fez grande sentido.
Desta vez, venho preparado. Raios ma partam se não cantar o "Azar na Praia", do Nel Monteiro, com coro africano móvel. Vai ser lindo.

E pronto. Bom 2015, adeus, é hora de ir sacudir o papagaio. Hoje faço anos. Muitos. No ano passado só me saíram duques, o que não é o fim do mundo, são tantos que é natural apanhar alguns com lagarta, então é bom começar este aqui, um sítio onde sou sagrado, e ter pela frente uma data de países onde ainda se usa papel químico. 


19.8.13

paraguai --> méxico. e outras coisas

NiHao

Estou na Chinaaaaaaa (é enorme), e o que faço aqui só Deus sabe. Desculpem, começo logo com disparates. Ninguém sabe o que faço aqui. 

Acabei a viagem nas Americas. Estive em casa umas semanas; vendi o carro, acordei ressacado um dia e comprei um voo para longe. O senhor Josh Homme chama-lhe a “bittersweet curse. Nothing feels better then going home, and nothing feels better than leaving home”. E é disto que sofro, e astigmatismo. O português do senhor não é o melhor, por isso fica em estrangeiro, perdon.

Da última vez que escrevi, estava no Paraguai, e o resto da viagem, até ao México, correu bem, ao contrário do que temia, felizmente. Passei por países com má fama, por cidades que estão no topo da lista mundial das mais violentas, mas nem um arranhão. 

Para terem a noção da minha preocupação, antes de partir até fiz um testamento. Além dos cacarecos, as coisas, que distribuí ao calha, como se dão brinquedos num orfanato na altura de Natal, distribuí também as ex-namoradas. Todas as minhas namoradas sempre foram muito cobiçadas pelos meus amigos, mas, devido ao código de honra entre homens, estavam fora do seu alcance. Não se toca na mulher de um amigo, nunca, nem depois de este ser esquartejado em El Salvador. 

Na verdade, não é bem assim, há três excepções que podem anular o honrado pacto: por desejo final do possuidor da ex (em testamento, como foi o caso), se o Dalai Lama não voltar a reencarnar e quando a igreja católica admitir que tem saudades do cheirinho a pessoas queimadas em praça pública. Num mundo ideal, as ex não têm voto na matéria, mas num mundo ideal os muçulmanos também não deveriam pilotar aviões e sabemos que não é bem isso que se passa. Às vezes tudo dá para o torto.

E assim foi, deixei uma ex a dois companheiros e a outra, a gorda, a quatro. Agora eles que se amanhem, pensei. 

As coisas ainda estiveram tremidas. Em Buenos Aires fui terrivelmente assaltado por um gajo estranho com um penteado fora de moda. Ainda tenho pesadelos. Andava descansado a passear, a “sentir a cidade”, como dizem os turistas chatos, quando um penteadinho me roubou um pacote de lenços de papel da mochila. Conheço alguns espertos que só lêem isto para depois criticar e dirão que um pacote de lenços "não é nada" e eu sou um “mariquinhas”, mas estava constipado e o pacote tinha 9 lenços, estava praticamente cheio. Lenços dos bons, ainda por cima, daqueles de folha dupla, não dos que se desfazem ao primeiro assopro. Há uma senhora no meu bairro, na Madragoa, que passa os dias com o braço de fora da janela a enxugar o seu lenço de papel. Lá descobriu um que gosta e há anos que usa o mesmo. Ela compreende-me, aposto.
Resultado: fiquei inconsolável e a fungar por uma semana. Se depender de mim, não volto à Argentina. Tenho medo. Há muita gente que morre por gripes mal curadas.

Mas sobrevivi, e já inutilizei o testamento. Assoei-me a ele.


Depois de uma noite às cabeçadas na janela de um autocarro paraguaio, cheguei à Bolívia. Para minha surpresa, tinha o Evo Morales e o seu helicóptero à espera na fronteira. Veio dar-me “uma carona”, disse. “Agradeço muito, e custa-me recusar um favor daquele que, desde da morte o Kadafi, tem o título de presidente mais bonito de todos, mas eu nunca voo durante estas viagens. Tenho de continuar no ônibus”, expliquei. Passou-se, e começou a insultar-me, chegando ao ponto de dizer: “... e estás a ficar careca, ó bimbo, não vale a pena tentares disfarçar. És um piroso, pobre e mal agradecido”. Fiquei lixado da vida, sou um pouco inseguro em relação ao meu cabelo e de cada vez que me vejo ao espelho lembro-me do dia em que estarei com um aspecto tão acabado como está o meu pai agora. Desatei ao gritos: “Vai-te embora, ó índio. Ninguém te pediu boleia. Vai mas é pentear macacos”. Mas o caraças ainda gozou, “Toda a gente sabe que os macacos só se penteiam de madrugada, no fresco, depois ficam agitados e ninguém os agarra. Seu burro”. Fiquei sem resposta, de facto, não sabia. Retribuí com um “então vai dar banho ao cão”, mas ninguém ouviu, a batalha estava perdida. Ainda avisei: “nem tentes pôr os pés em Portugal, nem na Europa, não serás bem-vindo”, mas não ligou puto, e cada um foi para o seu lado. 

Ele inaugurou uma estrada, só para justificar o combustível, e eu enfiei um boné e entrei no autocarro. O resto é história.


Até Cancun foi uma viagem santa. Pouco mais fiz do que conhecer pessoas, praias, restaurantes e cafés, e o que eles vendem. Para quem falar espanhol e não se parecer com um gringo, viajar na América do Sul e Central é tão fácil como passear por Espanha. 
Fiquei com muita vontade de voltar à Colômbia e ao México, os países que mais gostei, mas as diferenças entre todos eles não são gigantes. 
Os espanhóis não brincaram durante a colonização. Entraram a matar (literalmente). Em pouco tempo tinham o continente ocupado, e ficaram com a maior parte do bolo. Aos portugueses, mais lentos na investida, apenas sobrou a fatia com a fava, o tal de Brásiu.

Um truque bastante útil para viajar nesta zona, que possivelmente não encontram nos guias, é, numa bicha do multibanco ou correios, gritar “Espanhóis! Vêem aí os espanhóis!”. Depois é vê-los fugir em todas as direcções. É lindo. Deve ser instinto, acho que nascem com aquilo. Dá um jeitão.

O estranho é que sei mais sobre as atrocidades cometidas pelos nuestros hermanos do que pelos portugueses durante aqueles anos de glória. 
Na escola obrigaram-me a decorar os nomes de todos os reis e navegadores, quem eles levavam para a cama e os filhos que pariram, os novos sítios onde espetavam o padrão e as datas exactas em que o faziam. Uma trabalheira. Sobre as asneiras cometidas não houve tempo de ensinar. Explicaram que tinhamos imensos tupperwares com especiarias e barcos com escravos, mas depois tocava para o recreio, acabava a lição. Demorou muito tempo até entender que os tais “escravos” eram mesmo gente, iguais aos meus colegas de recreio, e não coisas, como missangas ou batatas.

Passamos a vida a ouvir que se aprende com os erros, mas parece que o plano é esquecê-los, apagá-los da história, talvez para que possam ser repetidos sem os terríveis problemas de consciência. E são repetidos, naturalmente. Um pouco por todo mundo, basta abrir os olhos e ver que, de uma ou outra forma, ainda se tratam muitas pessoas como se fossem batatas.

Viram, não sou apenas uma besta insensível. Ia escrever um parágrafo estúpido, para animar, mas fui sério, crítico, e falei em favor dos coitadinhos. Isto com a idade vai lá. E, só falar, não custa nada.

Aqui, na Chinaaaaa, viaja-se ao contrário das Americas. Aqui sou diferente e não percebo ninguém. Suponho que também ninguém me percebe, ou andam todos a gozar comigo.
Assim como lá passei o tempo a fazer amigos, nesta terra não se passam dois dias sem ter de bater em alguém, e com força, não é só cachaços de aviso. Sou um gajo calmo, mas eles gastam-me a paciência como se estivessem a comer arroz - depressa e à bruta. Não tenho prazer nenhum nisso. Não se fique com a ideia que o faço por ser seguro, fácil e divertido malhar em pessoas de metro e vinte, como é bater em crianças, por exemplo. É horrível, não por ser anti violência ou escuteiro ou parvo, acredito que uma ou três lambadas resolvem problemas, mas por ser contra o esforço físico, por ser preguiçoso, por não ser completamente parvo. 
Isto não significa que não gosto deles. Gosto, têm piada, mas dão muito trabalho. Vamos ver quanto tempo aguento. Pelo menos posso andar com a máquina ao pescoço, sem que por isso o queiram cortar. Já tinha saudades.

Disparates... Querem informações úteis, paguem-nas com cerveja. 
Beijos de Dalian. 

E não esqueçam, nunca confiem em homens que usam risco ao meio. 




8.4.13

América do Sul


¡hola

Este texto já vem tarde, estou na América do Sul há mais de um mês, mas que se lixe, como diz o ditado: mais vale tarde do que nunca. Ditado que, curiosamente, fui eu que inventei e pelo qual nunca me deram o devido crédito. É o mesmo de sempre... também inventei o “pinheiro molhado, Natal abençoado” e arranjaram maneira de me passar a perna. Mas, cá se fazem, cá se pagam. Ui, e não é que criei outro. E que pérola. Já faltava um assim, uma espécie de resignação vingativa. Vai ser um sucesso. 

Adelante... (é espanhol)

Sem alternativa, decidi começar esta viagem no fim do mundo, em Ushuaia. Não encontrei o início e começar pelo meio era meio parvo. É verdade que há outros fins do mundo, mas este é o mais famoso, o mais publicitado, então lá fui parar. Estive em Ushuaia há mais ou menos 9 anos, 3 meses e 10 dias, e tinha esperanças que tivesse mudado, no entanto, para meu desgosto, está na mesma. Na altura, achei tudo demasiado agradável, demasiado bonitinho para ser o "fim". Esperava um lugar desolado, triste, cinzento e perigoso, onde os gatos não fossem fofos, as árvores fossem troncos e os bifes fossem rijos, como os troncos. O fim do mundo. Pois, tentem pesquisar ushuaia+fin+del+mundo no google e encontrar alguma coisa desagradável. Não há. Dá lágrimas de tão convidativo que aquilo é. Até tem pinguins, possivelmente o animal mais adorável de todos.
Então, num acto de grande generosidade (é comum em mim), procurei o pior da cidade e fotografei-o, esperando que estas imagens apareçam em pesquisas no futuro, e que alguém como eu, alguém que acha os sítios feios mais interessantes do que os bonitos, as encontre e diga, “Obrigado, Pedro Elias, este é o fim do mundo que eu procurava”. E me pague uma cerveja, porque de agradecimentos e pancadinhas nas costas estou eu cheio. 


Outra vez sem alternativa, rumei a norte. Passei o estreito do Fernão (isto não soa nada bem) e fui até Punta Arenas. Já lá tinha estado.
É uma cidade pequena mas de ruas compridas, e, no seu centro, tem uma estátua do Fernão maior e mais cuidada do que a nossa, que vive no meio do fumo da Almirante Reis. É paragem de marinheiros, de militares e turistas, portanto está recheada de casas de meninas. Há um Nái Clu em cada esquina. Como sou um tipo que gosta de entrar, entrei num, fui matar a curiosidade. Com os devidos exageros a que julgo ter direito, vou contar como foi, sabendo que não passo de um puto inocente aos olhos dos frequentadores desses locais. De vez em quando lá me apanham em estabelecimentos em que meninas perdem a roupa, mas destes, confesso, não sou cliente. Lá chegarei, se Deus quiser. Para gajos como o meu aspecto, é só uma questão de tempo. Não há outra saída. 


Entrei. A primeira coisa que chama a atenção é a decoração. Que classe. Não seria de esperar que os dourados, roxos e veludos vermelhos funcionassem juntos, mas funcionam, e de que maneira. Tão acolhedor e nada chunga. Quero a minha casa assim.

Fui recebido por uma senhora feia que me encaminhou a um confortável sofá. Passado pouco tempo, chegou outra senhora, esta bonita, com um vestido comprado na secção dos 6 aos 10 anos que subiu acima do umbigo quando que se sentou ao meu lado. Estou sempre a dizer que a roupa é daquelas coisas onde não se deve poupar, mas ninguém me ouve. Sentou-se juntinho, porque estava frio. Dava para notar que ela estava arrepiada a uns 30 metros de distância, coitada. Descobri mais tarde que são obrigados a manter o ar-condicionado no máximo para evitar a propagação de doenças. Anda muito bicho no ar.

Com a Consuelo, a arrepiada, vieram dois sumos de laranja que fui obrigado a recusar porque estava com uma azia de morte. “Ardor de estomago”, disse-lhe, mas não se importou, estava intrigada com o fecho das minhas calças, parecia uma criança com um brinquedo novo. Num piscar de olhos, antes de lhe conseguir explicar, “Esto és un zip, muy eficiente e pratico”, já todo o seu interesse recaia no tecido dos meus boxers. “Algódon”, disse-lhe no meu melhor espanhol. Ela sorriu, e foi quando tudo começou a correr mal.
Continuava com sede e perguntou-me se não queria mandar vir uma garrafa de champanhe ou cocktails. Só que eu não nasci ontem, até já tenho um pêlo branco numa das narinas (não sei se é na esquerda ou na direita porque vi ao espelho e no espelho é tudo ao contrário, baralha), e percebi logo que algo não batia certo. Ora, não era o réveillon, porquê a champanha?, e os cocktails?, suminho de laranja? Era evidente que tinha ido parar a um estabelecimento para maricas. Calmamente levantei-me e disse, “Perdon, tenho o cão lá fora atado a um poste, tenho de ir meter uma moeda”, e pisguei-me. Nada contra as pessoas que bebem champanhas e bebidas por palhinhas sem serem obrigadas, quero é que andem felizes, mas eu andava à procura de algo diferente.
Mais tarde, contei esta historia num bar e garantiram-me que aquele é um prostíbulo tradicional, mas continuo com dúvidas. Também estranharam o facto de ter mostrado mais interesse na decoração do que no umbigo da Consuelo. Não interessa. Estou prontinho para outra.


De Punta Arenas é um salto até Puerto Natales, onde já tinha passado um Natal. Gosto de voltar a lugares que já conheço, como deve dar para perceber, e é por isso que ando a viajar tão desenfreadamente. É para ter mais sítios onde regressar. 
Em Natales, embarquei num ferry até Puerto Montt. Quatro dias a olhar para o mar. À noite houve karaoke, bingo (fiz linha e ganhei um boné horrível) e fiesta latina, mas, no fundo, nada para fazer. Perfeito. 

E... vou despachar isto, senão não acaba. 

A seguir, Santiago do Chile, que já conhecia. Tem óptimas casas de sandes. Engordei 30 kilos, tudo numa perna (não sei qual, por causa do espelho. mas não imaginam, é uma dor de cabeça para comprar calças).
Depois, Mendoza, que tem óptima vinhaça, e Puerto Iguazu, que tem óptimas quedas de água. 
No segundo dia de cataratas, acordei mal disposto, talvez pelo excesso de turistas, e, em vez de rumar logo ao Paraguai, decidi passar a semana santa em Buenos Aires e fazer fotografias estúpidas do Papa. Ou melhor, fotografias estúpidas relacionadas com o Papa. Não fui muito bem sucedido, mas a intenção é que conta, e esta era nobre.  

Et maintenant... (é espanhol) Estou em Assunção, capital do Paraguai, e a primeira cidade da viagem que não tem turistas. Os guias dizem que aqui não há nada para fazer, nada para ver. Adoro sítios assim. Mal se chega, está tudo visto, e só é preciso encontrar um tasco. Passam-se os dias a mudar de tasco, de esplanada e de banco de jardim. Há cidades em que gastamos tanta energia nos Tates e nos Louvres que depois falta força para ir ao café da esquina, onde não se aprende muito menos.

Entretanto, e para acabar, aconteceu uma tragédia. Foi pior do que acordar um dia e descobrir que o nosso filho é participante no Big Brother. A minha bela maquineta das fotografias avariou e vai ser repatriada. Uma grande treta. Na impossibilidade de continuar como fotógrafo, decidi voltar à minha primeira paixão, a música. A fotografia sempre esteve em quarto ou quinto lugar, depois da cerveja e dos ovos moles. Felizmente, da minha breve passagem pelo Brasil, percebi que o caminho mais rápido para a fama é criar um dupla romanticó-foleira, tipo Leandro e Leonardo (nome verdadeiro: Emival Eterno Costa. nem comento). Então, vou procurar um parceiro, o que não será difícil porque o que não faltam são brasileiros românticó-parôlos, e escrever umas músicas a-dar-pró-lamechas, o que é simples. Daqui a uns meses não se admirem de ouvir o grande sucesso na rádio: "Mi dói as rótula dos joelho di tanto mi ajoelhá por você", de Elias e Edivaldo.

Beijos grandes