7.9.07

Semana 6 - India - Nepal

FIM
Voltei inteiro, e com uns extras que só se ganham a viajar. A viagem foi óptima mas não fiquei perdido de amores pela Índia. Resumindo, porque não tenho tempo ou vontade de escrever, é um país que se deve conhecer, extremamente rico, com uma diversidade cultural e natural incrível, mas se tiverem algum dinheiro para gastar, gastem-no primeiro na África e América do Sul. Achei as viagens lá mais compensadoras, mais intensas. O nNepal vai dar ao mesmo, com algumas melhorias. Posso explicar melhor depois, de preferência numa esplanada. Agora estou a mudar de casa e nem tempo ainda tive para ver as fotografias todas.

Assim que possa, meto aqui umas imagens. Obrigado a quem cá passou durante estas semanas.

1.9.07

Nepal - Pokara

Não é uma grande história mas, à falta de melhor, mais vale contar o que se passou hoje. Roubaram-me o barquinho, alugado, que aparece no video. Estacionei-o e fui dar uma volta na floresta, procurar tigres, que dariam histórias mais interessantes do que esta, mas quando voltei tinha desaparecido. Depois de esperar uma hora, apanhei boleia de regresso com um velho de Rioja, que se emocionou quando lhe disse que conhecia o vinho da terra dele, e duas italianas, que deviam ser astrólogas porque só estavam interessadas na minha data exacta de nascimento.
Não encontrei o dono do barco mas as pessoas com quem falei não pareceram preocupadas. O lago não é enorme e um navio daqueles deve ser fácil de encontrar. Também pode ter acontecido, embora eu negue até ao fim, ele ter-se soltado e andar lá perdido no meio. Mas é uma hipotese muito remota, sou um marinheiro experiente e já aperto os sapatos sozinho desde pequeno, aquele laço segurava o Queen Mary. de qualquer modo, decidi mudar de visual, estou de bigode, e sair da cidade no autocarro das 7h00.

Acabei de jantar ao som da Enya. Que suplício. Vou beber qualquer coisa fria que rime com carqueja para ver se esqueço.
Bom fds



30.8.07

Semana 5 - Nepal

Hoje não tenho vontade de escrever. Vou ser rápido. Peço desculpa a quem esperava mais.

Cheguei ao Nepal e estou a descansar das férias na Índia. Não que tenham sido particularmente duras, tentei fazer o menor esforço possível, como é meu hábito, mas Catmandu é confortável, é tourist-friendly. Com mais dinheiro, talvez a Índia também o seja, mas o tipo de viagem que quis fazer de confortável teve pouco. Teve muito do resto.
Só  me sobram uns dias e, apesar de ser bom voltar a casa (nova:) e ver os amigos, não me importava de continuar mais um mesito, ou dois,… o Vietname, Camboja, Japão, Coreia,… estão tão perto e a vontade de andar para trás é pouca. Não me estou a queixar, principalmente depois de uma viagem destas e de ver o que vi, sei bem a sorte que tenho e dou graças a Dylan por isso, mas ainda não estou farto e não apetece regressar. É normal, no final de Agosto é um sentimento comum a muitos sortudos. Já sinto saudades de sítios onde passei e das pessoas que gostei, que, infelizmente, não cabem na mochila, e sei que em casa a ver as fotos, longe, vai ser pior. Vou aproveitar o tempo que me resta  (conversa de quem parece estar às portas da morte) e amanhã volto aos autocarros. Ouvi dizer que em Pokhara, uma cidade perto do Annapurna, há um restaurante com bifes enormes, ‘two-inch-thick steaks’,  em francês, o que justifica as 7 horas de viagem. Depois, de barriga cheia, apanho outro autocarro para qualquer lado.

Estive três dias em Deli. É incrível como nos habituamos depressa a novos ambientes e, apesar de alguns sítios ainda não serem fáceis de aguentar, e talvez seja mesmo melhor que nunca me habitue a eles, a cidade já me pareceu habitável. Quando cheguei, pronto para a confusão e barulho, até tive aquela sensação de feriado, em que toda a gente vai para a praia, e consegui contar 5 segundos entre duas buzinas. Acabei por escolher um hotel por metade do preço do primeiro e tive direito a um animal de estimação, o Ricardo, um rato castanho que corria desalmadamente pelo quarto sempre que lhe apontava a lanterna. Era animado, o Augusto, o meu gato, ia gostar dele.

No sábado fui ao Taj Mahal. É bonito e branco, e bastante mais pequeno do que imaginava. Pela fama, deve ser daquelas coisas para gajas em que o tamanho não importa. De perto, por ser todo em mármore, parece uma casa de banho. Não encontrei os urinóis então fiz o que tinha a fazer contra uma parede. Tentei escrever ‘Portugal’, como um antigo navegador espalhando o nome da pátria pelos quatro cantos do mundo, mas, como não tinha bebido cerveja, só deu para ‘Portug’. Não é grave, acho que se percebe.

Acabou-se a força nos dedos. Na próxima  semana escrevo FIM e mostro umas fotos. E, com umas sagres à frente, posso contar umas histórias engraçadas.

Aufirderzingue

 


Everest

24.8.07

Semana 4 - India

Hoje não é o dia do comprimido, o mesmo pelo qual me acusaram de tráfico na Gambia, e faz 4 semanas e 1 dia que apanhei o taxi para o aeroporto.

Nada de interessante para escrever. Está tudo a correr bem e, por isso, estou f da vida (f é de fulo, porque Nosso Sr castiga se dizer uma asneira, e c, que usarei mais à frente, é de caraças). Das minhas viagens guardo muitas histórias. Umas conto e outras não posso ou não quero contar. As melhores, as que ficam na memória, são os acidentes, esquecimentos e imprevistos que mais tarde têm piada relembrar. Mas, até agora, nada. Está, como disse na terceira ou quarta linha, tudo bem. Que raio de avô vou ser se não tiver histórias emocionantes para os meus netos e se por isso os estafermos preferirem o avô da concorrência, o estafermo mor, o c. Bela velhice me espera. No início da viagem, no aeroporto de Frankfurt, que não é uma cidade na Índia, deixei o passaporte e o bilhete de avião sozinhos, numa mesa, enquanto fui dar uma volta. Estavam assustados, mas bem, quando voltei. Nessa altura dei-me um grande puxão de orelhas, daqueles que as deixam vermelhas durante o recreio inteiro, e obriguei-me a crescer e comportar  como um homenzinho de 15 ou 16 anos. Mal imaginava que era possível ser-se tão sério e responsável com essa idade e, até agora, tudo corre como planeado, sem percalços. Não desisti, ainda faltam uns dias e há esperança. Não peço nenhuma calamidade, mas um azarito será bem-vindo.
   
No domingo deixei Leh e os calmos budistas, a luz forte e transparente, as quase-esplanadas, as estrelas que se tocam com a ponta dos dedos, as valetas em que só corre água,… e voltei à Índia que conhecia. Fiquei lá 6 dias e estava na altura de voltar a fazer quilómetros.
O primeiro dia viagem foi fácil, quase não chorei. Com a noite vieram as complicações intestinais, num autocarro que não pára porque o menino está apertadinho, e com a manhã uma encosta horrível que quase foi preciso descer em rapel. Já passou.
A paisagem de caxemira é parecida com algumas partes dos Alpes e Pirenéus. Montanhas, florestas e vales verdejantes, agricultores e pastores, que são iguais em todo o lado porque são homens que passam a vida sozinhos a pregar para o seu rebanho e não é a religião e hábitos de outros que os muda muito. Se calhar esta conversa era desnecessária, mas é o que dá não ter nada dramático para contar.
O Lago Dal é giro. Srinagar, nas margens, é uma cidade animada, barulhenta, ligeiramente porca e com tropas nas ruas, a sairem de tejadilhos de carros, enfiados em buracos, tapados por redes com malha demasiado larga para os proteger dos mosquitos, e,  até aqui,  nesta cyber-espelunca, onde acabam de fazer uma rusga ao bom estilo de bollyhood. Estão 700.000 militares estacionados em Caxemira, alguns em segunda fila (estava mortinho para enfiar esta piada em qualquer lado). Todos, claro, armados até aos dentes. Aliás, pelas minhas contas, nesta terra há mesmo mais balas do que dentes. O metro de arame farpado aqui é barato então usam-no para decorar tudo. Fica bonitinho, mas arranha.   Não  há muitos estrangeiros. Nada como uns atentadozinhos para afastar os turistas, que não são o alvo de nenhum dos lados armados. Há alguns cuidados a ter, como evitar multidões e não parar muito tempo em frente a quartéis, mas,  o meu preferido, porque é da minha autoria, é aproximar-me das brigadas de militares e polícias com a breguilha aberta. Ninguém dá importância a um gajo que anda com as cuecas à mostra e passa-se sem muitas perguntas. É um sítio desconfortável, mas suportável. Vale a pena visitar, é uma nova experiência.

As férias estão a acabar e a única forma de ainda conseguir ir ao Nepal é comprar um voo. Grandes desvios orçamentais, mas que se lixe, posso não vir a ser um avô rico, mas serei  um viajado. Vou lá passar a última semana.
Com saudades de alguns e na esperança que o azar finalmente me bata à porta, despeço-me. 

Cumprimentos,
Joaquim Agostinho

Leh



Dal Lake, Srinagar

18.8.07

Semana 3 - India

Hoje é o dia do comprimido, o mesmo pelo qual me acusaram de tráfico na Gambia, e faz 3 semanas que apanhei o táxi para o aeroporto.

Estou melhor. A falta de oxigénio e a distância de McLeod Gang fizeram maravilhas. Sinto-me novamente com vontade de esticar o braço e gritar um forte "give me five", ou "dá cá cinco" para os da geração Júlio Isidro, a cada leproso que me pedir dinheiro. Esta semana decidi separar-me das caras conhecidas e voltar a andar sozinho, então sabe bem escrever aqui um bocadinho.

Estive uns dias em Manali. A zona onde fiquei é, quase exclusivamente, uma colónia de férias de israelitas que, durante uns meses, tentam esquecer os três anos de serviço militar obrigatório. As drogas são baratas, ou grátis, se tiverem paciência de as apanhar e esperar que sequem, e muitos passam os dias deitar fumo e ouvir Bob Marley. Provavelmente faria o mesmo, por isso, deixá-los estar. O interessante da história é que ia dividir o quarto com um alemão que, quando se viu numa pensão cheia de judeus e dois franceses, emudeceu, não fosse, sem querer, soltar algum som parecido com Heil. Comprou um bilhete de autocarro, pagou a parte dele e deixou-me com a terrível decisão de escolher a cama. Experimentei as duas. Dormi melhor na da esquerda. Os israelitas falavam comigo com se percebesse hebreu e a partir do momento que souberam o meu apelido tive de andar a baixar as calças para provar que não era um deles. Já o fazia antes, mas agora o propósito era mostrar que não tenho o pirilau retalhado. Não gostei muito deles e penso que também não gostaram de mim. Nenhum mal virá ao mundo por isso.

Acabei de me lembrar de um óptimo título para um filme porno chinês, ‘O sítio do pirilau amarelo’. Esqueçam esta parte.

A viagem de Manali para Leh são dois dias. 473km. Pernoita-se, em tendas, a 4400m de altitude.
Não sou um gajo de muitos medos. Tenho medo de me magoar, por isso evito gozar com ciganos e fazer cavalinhos de mota, mas não me assustam aquelas coisas que, se correrem mal, morre-se. Já  apertei a mão ao Fernando Mamede e tive dois cães, não posso pedir muito mais da vida. Sei que não vou ficar deprimido depois de esticar o pernil, então não é algo que me preocupe. Viver,  sim, pode preocupar. Bonita reflexão de um gajo cuja maior ambição é não ter ressacas. Mas dizia, é estranho que uma viagem de autocarro, em que em caso de acidente teriam de apanhar os meus restos com uma pá, me deixasse com o coração nas mãos e os testículos no chão, neste caso, a arrastar no pavimento. Acho que é o acumular de É AGORAs que me deixa nervoso. Os precipicios são  demasiado grandes e as estradas demasiado pequenas. À noite, quando todos os gatos são da mesma cor, é pior ainda. É fácil entender porquê, ao contrário dos aviões, os hospedeiros, ou picas, nem se dão ao trabalho de explicar as normas de segurança. Não há safa. A única coisa que poderiam dizer era, "Boa tarde srs passageiros, bem-vindos à camioneta carreira Manali-Leh. Peço que enrolem o vosso passaporte e o insiram no ânus. Este procedimento facilitará a identificação dos corpos. Obrigado por preferirem viajar connosco".
Cheguei moido, mas adorei o que vi. Nem vou tentar descrever.

Leh está cheia de profissionais do trekking e outros desportos de montanha. São giros, com Gore-Tex e Polartec tatuado no ombro, onde deveria estar o nome da pessoa amada, e a lanterna sempre na cabeça, mesmo a meio dos chifres, pronta a acender ao menor sinal de um interruptor desligado. Pelos vistos, o Dalai está cá em visita pascal, mas ainda não me apetece ir vê-lo. É um tipo porreiro e mais depressa dou três  passos para o ver do que para ver o Bento, que também não é má pessoa, mas a minha religião é outra e só faço vénias perante Sua Santidade O Bob Dylan e alguns dos seus cardeais.

Vou ficar por aqui uns tempos a visitar aldeias vizinhas e a arranjar coragem para outros dois dias de tortura. Desta vez vou embrulhar os dois em papel de prata para fazerem faisca ao raspar no asfalto. Aumenta o drama. De qualquer modo, a situação em Srinagar, para onde vou a seguir, está meio complicada e vou esperando que acalme. Não me apetece dar o salto de fotógrafo de casamentos para fotógrafo de guerra. Primeiro quero fotografar pessoas que se ignoram.
  
A minha mãe fez anos no dia 12. 67. Parabéns Odete, gosto muito de ti.
Por razões técnicas e pseudo-artisticas vou apenas ver as fotografias quando voltar. Nessa altura mostro. Enfio mais dois videos para dar alguma cor a isto.
O meu número de telefone indiano não funciona aqui no estado de caxemira.

Beijos a quem leu tudo. Beijinhos aos outros






LachulungLa (+/- 4800m alt)

9.8.07

semana 2 - India

Acordo quando calha. Banhoca, pego na guitarra, sento-me no terraço virado para o vale, como uma fatia de cheese cake de limão e bebo chá preto. Toco sempre a mesma coisa, o suficiente para alimentar o eco e o ego, porque se senta sempre alguém para ouvir, e depois vou até ao templo ver o pessoal rezar. Lá, espero pela hora de almoço. A seguir, pego no livro até estar pronto para a sesta. Acordo quando calha. Sento-me na praça a ver o trânsito, depois bebo chá num sítio que tem fotografias penduradas e chávenas em vez de copos e vou jantar, às 8, comida tibetana, que é boa mas não faz esquecer a feijoada, com a Sophie e a Lucy. 
E foi a minha semana. Triste e monótona.

Estou em McLeod Ganj, lugar de exílio do Dalai e seu gang sorridente, onde umas vezes chove, outras faz sol, mas normalmente nem uma coisa nem outra. É uma terra cheia de turistas de vários géneros. Os mais giros, esteticamente, são os ex-hyppies e outros quase iguais mas deprimidos por terem nascido tarde demais para o serem. São viciados em yoga, reiki, meditação transcendental, massagens cósmicas,… uma série de coisas pouco saudáveis com enorme oferta aqui. Traz trabalho à população local, na sua marioria de origem tibetana, o que é bom. Com os turistas, chegam também os pedintes e muitos filhos da mãe piores.
Reencontrei algumas pessoas. Tudo cá pára para descansar. Está cá o Kim, o coreano que dormiu comigo e com a namorada em Amritsar. Foi uma noite estranha, em que quando acordei, em vez do casal, estavam ao meu lado duas alegres coreanas. Tinha rezado por isso no dia anterior e, quando se realizou, pensei imediatamente tornar-me um Sikh devoto. Infelizmente, assim como misteriosamente apareceram, também desapareceram, e o meu futuro religioso continua comprometido.

Então, cá tenho ficado, por comodismo e preguiça. Ontem até mudei para um quarto maior e com banho quente, decidindo, em compensação orçamental, abdicar da cerveja da noite. Rapidamente me apercebi da asneira, que este ambiente de paz e tranquilidade, e vários dias de comida vegetariana, me estavam a afectar e comprei um bilhete de autocarro para longe, para tentar salvar o resto de impuro que há em mim. Aqui tenho as prioridades tão trocadas que, imagine-se, até fiz a barba. Como não vinha preparado para tal eventualidade, em vez de after-shave usei Fenistil, ou Gel-milagroso-que-se-aplica-por-tudo-e-por-nada, e a minha pele ficou suave e sem irritações. Tenho usado bastante o Gel-milagroso-que-se-aplica-por-tudo-e-por-nada, principalmente depois de ter descoberto uma pulga, solitária,  na cama. Apareceu, não por o hotel ser sujo, embora não esteja muito longe disso, mas por cumprimentar todos os cães, vacas, burros e macacos com que me cruzo. Como solução ao grave problema pulgoso, decidi, além do Gel-milagroso-que-se-aplica-por-tudo-e-por-nada, besuntar-me com insecticida e continuar a fazer amigos pela rua.

Mas nem tudo é mau. Tive 3 dias a fotografar como um doido. Se unidade SI da doideira fosse o byte, esta teve 6 Gbytes de tamanho, o que não é pouco. Só tenho de escrever umas tretas e um dos trabalhos que queria fazer está pronto. No meio do lixo todo, acho que até tenho umas fotografias.

Agora vou viajar pelo menos durante 3 dias, passando na segunda estrada transitável mais alta no planeta, acima dos 5000m, com destino a Leh, nos Himalaias, que são uma série de montes altos. "Planeta" dá um ar importante à coisa.

E pronto, stressadinho de todo, despesso-me.
Adeus



McLeod Ganj

2.8.07

Semana 1 - India

Quando viajo, pelo menos 3 horas por dia são passadas numa esplanada e, por estranho que pareça, ainda não encontrei aqui nada digno desse nome. Mesmo esticando a sesta, são 2 horitas, no pico do calor, sem saber o que fazer. Um stress. Há terraços, mas ver passar pássaros e macacos não é o mesmo do que ver passar pessoas, e os telhados só começam a ser interessantes a partir da quarta cerveja (650mL). Isto cria-me automaticamente outro problema. A cerveja aqui não é barata e o meu orçamento não preve bebedeiras porque quando foi feito, num momento de triste introspecção, cheguei à conclusão que não sou um potencial alcoólico, nem mesmo um bebedo regular. Não sou um homem de barba suficiente rija, nem uma mulher de longos periodos. As ressacas deprimem-me física e mentalmente. Então, cá estou, com tempo, a mandar notícias.
Nestas horas de tédio já li dois livros. O primeiro de um gajo de Paraty que atravessou o Atlântico sul num barco a remos e que é óptimo para quem inicia uma viagem sozinho; outro do Saramago, um tipo que deve ter ido às aulas todas e estava, com certeza, atento, coisa que eu não fiz e o resultado é evidente. Amanhã vou trocá-los por outros. Espero que o dono, o João, não lhes tenha particular carinho.

Técnicamente está tudo bem. Apenas umas arrelias com a bateria do telemóvel/leitormp3/conversordemoeda/filmador/… e uma pequena zanga nos intestinos,  que, depois de um dia a tirar bicas, recomeçaram a funcionar normalmente. O cocózinho do menino sai regular (no tempo) e bem estruturado (na forma). O temido início do Holocausto Intestinal felizmente ainda não chegou.

Não tenho fotografado muito. Além de ter preguica, decidi não fotografar pobrezinhos nem fazer postalinhos, as bibliotecas estão cheias disso, então pouco sobra. Mas, para distrair, já tenho dois temas.
- The Sleeping Dog - quando não há espaço para dormir ao lado deles, fotografo-os. 
- Cow-art - como não as posso comer, fotografo-as.
Ainda não consegui convencer estes tipos da minha teoria vegetariana da árvore-da-picanha e continuo a vê-las passar alegres e apetitosas.

As pessoas são simpáticas, aliás, como em todos os países onde andei. Os tipos são feios, porcos e bonzinhos, e as tipas são boas. Essas três tipas boas de que falo eram das mais bonitas que encontrei em 30 anos, casava-me amanhã e nem tinham de pagar, como é costume na região, as outras todas deviam estar sempre fechadas na cozinha, agarradas aos frascos de caril. Em terra de machos, macho e meio. 

Estou farto de andar,  Deli - Jaipur - Jaisalmer - Deli - Amritsar, mas ainda não me apetece parar.
A zona mais velha de Deli, Old Delhi, como diziam os colonizadores, tem piada. Nada nos prepara para o cheiro, a porcaria, o barulho, as toneladas de pessoas, vacas, ratos,… e o primeiro embate é doloroso, principalmente caindo lá às 2am, como dizem os mesmo tipos. Quero voltar, mas com um quarto em que não tenha nojo de entrar, para recuperar no fim do dia. Tenho ficado em sítios baratos e consegui tomar três duches, porque funcionavam, o que aumentou a média nacional para quase um por mês, embora esta estatística não seja justa agora, na época das monções. Quem anda à chuva lava-se, e, aqui, possivelmente até morre. Ontem, no estado de Deli, foram 150.

De Jaipur e Jaisalmer não gostei e não lá quero voltar antes dos 31. Tem uns monumentos bonitinhos e alguma confusão engraçada, mas há muitos turistas e ainda mais trafulhas atrás deles. Se fossem trafulhas porreiros, daqueles que inventam histórias mirabolantes para nos enganar, até animava, mas estes são  chatos, têm sempre a mesma conversa e apostam na insistência. Não há paciência.
    Amritsar, onde estou, é a terra dos Sikhs, uns tipos de grandes turbantes, grandes barbas e bigodes enrolados. Se o destino tivesse querido que, em vez de ser o q sou, fosse caçador de cabecas, era uma destas que pendurava por cima do termo-ventilador. Não tenho lareira. Isto é a 30km do Paquistão e vou a caminho do norte, de Caxemira. Antes, passo na terra do Dalai Lama para o cumprimentar. Está triste, coitado. Diz-se por aqui que lhe roubaram umas terras.

Tenho um número indiano, mas não sei qual é, e o português não funciona. De qualquer modo, de vez em quando, vejo o email. Obrigado a quem já me escreveu.
Para a semana escrevo mais. Esta a acabar a hora de net e não quero pagar a segunda. 0.35eur custam a ganhar. Vou comer ao pizza point (apontem) que tem uns veg cheese burger por 0.85eur, com sprite e 15 bem contados palitos de batata à francesa. Depois vou dormir no templo. É gratis, mas tenho de dividir o quarto com um casal de coreanos, o armário com duas francesas e o banheiro, como diria o tipo de Paraty, com uns 5000 peregrinos (número estimado pelo cheiro).

estava a precisar de falar. saudades… :)
Mas ainda não me fartei da minha companhia e a moral está alta para continuar.


Jaipur


Amritsar