2.8.07

Semana 1 - India

Quando viajo, pelo menos 3 horas por dia são passadas numa esplanada e, por estranho que pareça, ainda não encontrei aqui nada digno desse nome. Mesmo esticando a sesta, são 2 horitas, no pico do calor, sem saber o que fazer. Um stress. Há terraços, mas ver passar pássaros e macacos não é o mesmo do que ver passar pessoas, e os telhados só começam a ser interessantes a partir da quarta cerveja (650mL). Isto cria-me automaticamente outro problema. A cerveja aqui não é barata e o meu orçamento não preve bebedeiras porque quando foi feito, num momento de triste introspecção, cheguei à conclusão que não sou um potencial alcoólico, nem mesmo um bebedo regular. Não sou um homem de barba suficiente rija, nem uma mulher de longos periodos. As ressacas deprimem-me física e mentalmente. Então, cá estou, com tempo, a mandar notícias.
Nestas horas de tédio já li dois livros. O primeiro de um gajo de Paraty que atravessou o Atlântico sul num barco a remos e que é óptimo para quem inicia uma viagem sozinho; outro do Saramago, um tipo que deve ter ido às aulas todas e estava, com certeza, atento, coisa que eu não fiz e o resultado é evidente. Amanhã vou trocá-los por outros. Espero que o dono, o João, não lhes tenha particular carinho.

Técnicamente está tudo bem. Apenas umas arrelias com a bateria do telemóvel/leitormp3/conversordemoeda/filmador/… e uma pequena zanga nos intestinos,  que, depois de um dia a tirar bicas, recomeçaram a funcionar normalmente. O cocózinho do menino sai regular (no tempo) e bem estruturado (na forma). O temido início do Holocausto Intestinal felizmente ainda não chegou.

Não tenho fotografado muito. Além de ter preguica, decidi não fotografar pobrezinhos nem fazer postalinhos, as bibliotecas estão cheias disso, então pouco sobra. Mas, para distrair, já tenho dois temas.
- The Sleeping Dog - quando não há espaço para dormir ao lado deles, fotografo-os. 
- Cow-art - como não as posso comer, fotografo-as.
Ainda não consegui convencer estes tipos da minha teoria vegetariana da árvore-da-picanha e continuo a vê-las passar alegres e apetitosas.

As pessoas são simpáticas, aliás, como em todos os países onde andei. Os tipos são feios, porcos e bonzinhos, e as tipas são boas. Essas três tipas boas de que falo eram das mais bonitas que encontrei em 30 anos, casava-me amanhã e nem tinham de pagar, como é costume na região, as outras todas deviam estar sempre fechadas na cozinha, agarradas aos frascos de caril. Em terra de machos, macho e meio. 

Estou farto de andar,  Deli - Jaipur - Jaisalmer - Deli - Amritsar, mas ainda não me apetece parar.
A zona mais velha de Deli, Old Delhi, como diziam os colonizadores, tem piada. Nada nos prepara para o cheiro, a porcaria, o barulho, as toneladas de pessoas, vacas, ratos,… e o primeiro embate é doloroso, principalmente caindo lá às 2am, como dizem os mesmo tipos. Quero voltar, mas com um quarto em que não tenha nojo de entrar, para recuperar no fim do dia. Tenho ficado em sítios baratos e consegui tomar três duches, porque funcionavam, o que aumentou a média nacional para quase um por mês, embora esta estatística não seja justa agora, na época das monções. Quem anda à chuva lava-se, e, aqui, possivelmente até morre. Ontem, no estado de Deli, foram 150.

De Jaipur e Jaisalmer não gostei e não lá quero voltar antes dos 31. Tem uns monumentos bonitinhos e alguma confusão engraçada, mas há muitos turistas e ainda mais trafulhas atrás deles. Se fossem trafulhas porreiros, daqueles que inventam histórias mirabolantes para nos enganar, até animava, mas estes são  chatos, têm sempre a mesma conversa e apostam na insistência. Não há paciência.
    Amritsar, onde estou, é a terra dos Sikhs, uns tipos de grandes turbantes, grandes barbas e bigodes enrolados. Se o destino tivesse querido que, em vez de ser o q sou, fosse caçador de cabecas, era uma destas que pendurava por cima do termo-ventilador. Não tenho lareira. Isto é a 30km do Paquistão e vou a caminho do norte, de Caxemira. Antes, passo na terra do Dalai Lama para o cumprimentar. Está triste, coitado. Diz-se por aqui que lhe roubaram umas terras.

Tenho um número indiano, mas não sei qual é, e o português não funciona. De qualquer modo, de vez em quando, vejo o email. Obrigado a quem já me escreveu.
Para a semana escrevo mais. Esta a acabar a hora de net e não quero pagar a segunda. 0.35eur custam a ganhar. Vou comer ao pizza point (apontem) que tem uns veg cheese burger por 0.85eur, com sprite e 15 bem contados palitos de batata à francesa. Depois vou dormir no templo. É gratis, mas tenho de dividir o quarto com um casal de coreanos, o armário com duas francesas e o banheiro, como diria o tipo de Paraty, com uns 5000 peregrinos (número estimado pelo cheiro).

estava a precisar de falar. saudades… :)
Mas ainda não me fartei da minha companhia e a moral está alta para continuar.


Jaipur


Amritsar

1 comentário:

Anónimo disse...

desculpa lá, eu sei que este texto já tens uma quantidade de anos, mas gostei tanto dele que tinha de comentar :) és muito fixe primaço!gosto buéeeeeeeeeeeeee de ti :*****