9.8.07

semana 2 - India

Acordo quando calha. Banhoca, pego na guitarra, sento-me no terraço virado para o vale, como uma fatia de cheese cake de limão e bebo chá preto. Toco sempre a mesma coisa, o suficiente para alimentar o eco e o ego, porque se senta sempre alguém para ouvir, e depois vou até ao templo ver o pessoal rezar. Lá, espero pela hora de almoço. A seguir, pego no livro até estar pronto para a sesta. Acordo quando calha. Sento-me na praça a ver o trânsito, depois bebo chá num sítio que tem fotografias penduradas e chávenas em vez de copos e vou jantar, às 8, comida tibetana, que é boa mas não faz esquecer a feijoada, com a Sophie e a Lucy. 
E foi a minha semana. Triste e monótona.

Estou em McLeod Ganj, lugar de exílio do Dalai e seu gang sorridente, onde umas vezes chove, outras faz sol, mas normalmente nem uma coisa nem outra. É uma terra cheia de turistas de vários géneros. Os mais giros, esteticamente, são os ex-hyppies e outros quase iguais mas deprimidos por terem nascido tarde demais para o serem. São viciados em yoga, reiki, meditação transcendental, massagens cósmicas,… uma série de coisas pouco saudáveis com enorme oferta aqui. Traz trabalho à população local, na sua marioria de origem tibetana, o que é bom. Com os turistas, chegam também os pedintes e muitos filhos da mãe piores.
Reencontrei algumas pessoas. Tudo cá pára para descansar. Está cá o Kim, o coreano que dormiu comigo e com a namorada em Amritsar. Foi uma noite estranha, em que quando acordei, em vez do casal, estavam ao meu lado duas alegres coreanas. Tinha rezado por isso no dia anterior e, quando se realizou, pensei imediatamente tornar-me um Sikh devoto. Infelizmente, assim como misteriosamente apareceram, também desapareceram, e o meu futuro religioso continua comprometido.

Então, cá tenho ficado, por comodismo e preguiça. Ontem até mudei para um quarto maior e com banho quente, decidindo, em compensação orçamental, abdicar da cerveja da noite. Rapidamente me apercebi da asneira, que este ambiente de paz e tranquilidade, e vários dias de comida vegetariana, me estavam a afectar e comprei um bilhete de autocarro para longe, para tentar salvar o resto de impuro que há em mim. Aqui tenho as prioridades tão trocadas que, imagine-se, até fiz a barba. Como não vinha preparado para tal eventualidade, em vez de after-shave usei Fenistil, ou Gel-milagroso-que-se-aplica-por-tudo-e-por-nada, e a minha pele ficou suave e sem irritações. Tenho usado bastante o Gel-milagroso-que-se-aplica-por-tudo-e-por-nada, principalmente depois de ter descoberto uma pulga, solitária,  na cama. Apareceu, não por o hotel ser sujo, embora não esteja muito longe disso, mas por cumprimentar todos os cães, vacas, burros e macacos com que me cruzo. Como solução ao grave problema pulgoso, decidi, além do Gel-milagroso-que-se-aplica-por-tudo-e-por-nada, besuntar-me com insecticida e continuar a fazer amigos pela rua.

Mas nem tudo é mau. Tive 3 dias a fotografar como um doido. Se unidade SI da doideira fosse o byte, esta teve 6 Gbytes de tamanho, o que não é pouco. Só tenho de escrever umas tretas e um dos trabalhos que queria fazer está pronto. No meio do lixo todo, acho que até tenho umas fotografias.

Agora vou viajar pelo menos durante 3 dias, passando na segunda estrada transitável mais alta no planeta, acima dos 5000m, com destino a Leh, nos Himalaias, que são uma série de montes altos. "Planeta" dá um ar importante à coisa.

E pronto, stressadinho de todo, despesso-me.
Adeus



McLeod Ganj

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