18.8.07

Semana 3 - India

Hoje é o dia do comprimido, o mesmo pelo qual me acusaram de tráfico na Gambia, e faz 3 semanas que apanhei o táxi para o aeroporto.

Estou melhor. A falta de oxigénio e a distância de McLeod Gang fizeram maravilhas. Sinto-me novamente com vontade de esticar o braço e gritar um forte "give me five", ou "dá cá cinco" para os da geração Júlio Isidro, a cada leproso que me pedir dinheiro. Esta semana decidi separar-me das caras conhecidas e voltar a andar sozinho, então sabe bem escrever aqui um bocadinho.

Estive uns dias em Manali. A zona onde fiquei é, quase exclusivamente, uma colónia de férias de israelitas que, durante uns meses, tentam esquecer os três anos de serviço militar obrigatório. As drogas são baratas, ou grátis, se tiverem paciência de as apanhar e esperar que sequem, e muitos passam os dias deitar fumo e ouvir Bob Marley. Provavelmente faria o mesmo, por isso, deixá-los estar. O interessante da história é que ia dividir o quarto com um alemão que, quando se viu numa pensão cheia de judeus e dois franceses, emudeceu, não fosse, sem querer, soltar algum som parecido com Heil. Comprou um bilhete de autocarro, pagou a parte dele e deixou-me com a terrível decisão de escolher a cama. Experimentei as duas. Dormi melhor na da esquerda. Os israelitas falavam comigo com se percebesse hebreu e a partir do momento que souberam o meu apelido tive de andar a baixar as calças para provar que não era um deles. Já o fazia antes, mas agora o propósito era mostrar que não tenho o pirilau retalhado. Não gostei muito deles e penso que também não gostaram de mim. Nenhum mal virá ao mundo por isso.

Acabei de me lembrar de um óptimo título para um filme porno chinês, ‘O sítio do pirilau amarelo’. Esqueçam esta parte.

A viagem de Manali para Leh são dois dias. 473km. Pernoita-se, em tendas, a 4400m de altitude.
Não sou um gajo de muitos medos. Tenho medo de me magoar, por isso evito gozar com ciganos e fazer cavalinhos de mota, mas não me assustam aquelas coisas que, se correrem mal, morre-se. Já  apertei a mão ao Fernando Mamede e tive dois cães, não posso pedir muito mais da vida. Sei que não vou ficar deprimido depois de esticar o pernil, então não é algo que me preocupe. Viver,  sim, pode preocupar. Bonita reflexão de um gajo cuja maior ambição é não ter ressacas. Mas dizia, é estranho que uma viagem de autocarro, em que em caso de acidente teriam de apanhar os meus restos com uma pá, me deixasse com o coração nas mãos e os testículos no chão, neste caso, a arrastar no pavimento. Acho que é o acumular de É AGORAs que me deixa nervoso. Os precipicios são  demasiado grandes e as estradas demasiado pequenas. À noite, quando todos os gatos são da mesma cor, é pior ainda. É fácil entender porquê, ao contrário dos aviões, os hospedeiros, ou picas, nem se dão ao trabalho de explicar as normas de segurança. Não há safa. A única coisa que poderiam dizer era, "Boa tarde srs passageiros, bem-vindos à camioneta carreira Manali-Leh. Peço que enrolem o vosso passaporte e o insiram no ânus. Este procedimento facilitará a identificação dos corpos. Obrigado por preferirem viajar connosco".
Cheguei moido, mas adorei o que vi. Nem vou tentar descrever.

Leh está cheia de profissionais do trekking e outros desportos de montanha. São giros, com Gore-Tex e Polartec tatuado no ombro, onde deveria estar o nome da pessoa amada, e a lanterna sempre na cabeça, mesmo a meio dos chifres, pronta a acender ao menor sinal de um interruptor desligado. Pelos vistos, o Dalai está cá em visita pascal, mas ainda não me apetece ir vê-lo. É um tipo porreiro e mais depressa dou três  passos para o ver do que para ver o Bento, que também não é má pessoa, mas a minha religião é outra e só faço vénias perante Sua Santidade O Bob Dylan e alguns dos seus cardeais.

Vou ficar por aqui uns tempos a visitar aldeias vizinhas e a arranjar coragem para outros dois dias de tortura. Desta vez vou embrulhar os dois em papel de prata para fazerem faisca ao raspar no asfalto. Aumenta o drama. De qualquer modo, a situação em Srinagar, para onde vou a seguir, está meio complicada e vou esperando que acalme. Não me apetece dar o salto de fotógrafo de casamentos para fotógrafo de guerra. Primeiro quero fotografar pessoas que se ignoram.
  
A minha mãe fez anos no dia 12. 67. Parabéns Odete, gosto muito de ti.
Por razões técnicas e pseudo-artisticas vou apenas ver as fotografias quando voltar. Nessa altura mostro. Enfio mais dois videos para dar alguma cor a isto.
O meu número de telefone indiano não funciona aqui no estado de caxemira.

Beijos a quem leu tudo. Beijinhos aos outros






LachulungLa (+/- 4800m alt)

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