24.8.07

Semana 4 - India

Hoje não é o dia do comprimido, o mesmo pelo qual me acusaram de tráfico na Gambia, e faz 4 semanas e 1 dia que apanhei o taxi para o aeroporto.

Nada de interessante para escrever. Está tudo a correr bem e, por isso, estou f da vida (f é de fulo, porque Nosso Sr castiga se dizer uma asneira, e c, que usarei mais à frente, é de caraças). Das minhas viagens guardo muitas histórias. Umas conto e outras não posso ou não quero contar. As melhores, as que ficam na memória, são os acidentes, esquecimentos e imprevistos que mais tarde têm piada relembrar. Mas, até agora, nada. Está, como disse na terceira ou quarta linha, tudo bem. Que raio de avô vou ser se não tiver histórias emocionantes para os meus netos e se por isso os estafermos preferirem o avô da concorrência, o estafermo mor, o c. Bela velhice me espera. No início da viagem, no aeroporto de Frankfurt, que não é uma cidade na Índia, deixei o passaporte e o bilhete de avião sozinhos, numa mesa, enquanto fui dar uma volta. Estavam assustados, mas bem, quando voltei. Nessa altura dei-me um grande puxão de orelhas, daqueles que as deixam vermelhas durante o recreio inteiro, e obriguei-me a crescer e comportar  como um homenzinho de 15 ou 16 anos. Mal imaginava que era possível ser-se tão sério e responsável com essa idade e, até agora, tudo corre como planeado, sem percalços. Não desisti, ainda faltam uns dias e há esperança. Não peço nenhuma calamidade, mas um azarito será bem-vindo.
   
No domingo deixei Leh e os calmos budistas, a luz forte e transparente, as quase-esplanadas, as estrelas que se tocam com a ponta dos dedos, as valetas em que só corre água,… e voltei à Índia que conhecia. Fiquei lá 6 dias e estava na altura de voltar a fazer quilómetros.
O primeiro dia viagem foi fácil, quase não chorei. Com a noite vieram as complicações intestinais, num autocarro que não pára porque o menino está apertadinho, e com a manhã uma encosta horrível que quase foi preciso descer em rapel. Já passou.
A paisagem de caxemira é parecida com algumas partes dos Alpes e Pirenéus. Montanhas, florestas e vales verdejantes, agricultores e pastores, que são iguais em todo o lado porque são homens que passam a vida sozinhos a pregar para o seu rebanho e não é a religião e hábitos de outros que os muda muito. Se calhar esta conversa era desnecessária, mas é o que dá não ter nada dramático para contar.
O Lago Dal é giro. Srinagar, nas margens, é uma cidade animada, barulhenta, ligeiramente porca e com tropas nas ruas, a sairem de tejadilhos de carros, enfiados em buracos, tapados por redes com malha demasiado larga para os proteger dos mosquitos, e,  até aqui,  nesta cyber-espelunca, onde acabam de fazer uma rusga ao bom estilo de bollyhood. Estão 700.000 militares estacionados em Caxemira, alguns em segunda fila (estava mortinho para enfiar esta piada em qualquer lado). Todos, claro, armados até aos dentes. Aliás, pelas minhas contas, nesta terra há mesmo mais balas do que dentes. O metro de arame farpado aqui é barato então usam-no para decorar tudo. Fica bonitinho, mas arranha.   Não  há muitos estrangeiros. Nada como uns atentadozinhos para afastar os turistas, que não são o alvo de nenhum dos lados armados. Há alguns cuidados a ter, como evitar multidões e não parar muito tempo em frente a quartéis, mas,  o meu preferido, porque é da minha autoria, é aproximar-me das brigadas de militares e polícias com a breguilha aberta. Ninguém dá importância a um gajo que anda com as cuecas à mostra e passa-se sem muitas perguntas. É um sítio desconfortável, mas suportável. Vale a pena visitar, é uma nova experiência.

As férias estão a acabar e a única forma de ainda conseguir ir ao Nepal é comprar um voo. Grandes desvios orçamentais, mas que se lixe, posso não vir a ser um avô rico, mas serei  um viajado. Vou lá passar a última semana.
Com saudades de alguns e na esperança que o azar finalmente me bata à porta, despeço-me. 

Cumprimentos,
Joaquim Agostinho

Leh



Dal Lake, Srinagar

Sem comentários: