22.10.11

cairo


Boas notícias. Tal como desejava, está quentinho no Cairo.

Comecei a achar que as coisas iam correr bem ainda antes de partir, quando o tipo que se sentou ao meu lado no avião, aponta para a janela, e diz emocionado:
- Water!
- It's rain!, completei eu, mostrando que sou conhecedor de coisas relacionadas com este líquido, e fluente em francês.
Ele pareceu impressionado com a minha sabedoria, mas a conversa ficou por ali, e continuou a olhar para a janela enquanto suspirava de forma estranha.

Percebi que estava a lidar com um cidadão egípcio, pois tinha feições típicas de um descendente de faraó (era chupadinho como uma múmia), a pronúncia de um vendedor de tapetes, e um passaporte verde com as letras E g y p t, a doirado.

Deduzi também, voltando a usar os meus extraordinários poderes de observação, que era um homem pouco viajado. A sua reacção de espanto e alegria quando lhe ensinei como mudar a inclinação das costas da cadeira claramente indicava que era a primeira ou segunda vez que viajava numa aeronave daquele tipo, ou mesmo num autocarro construído nos últimos 20 anos. Praticou, durante quase toda a viagem, o que tinha acabado de aprender, mesmo perante o desespero da pessoa que viajava atrás, que era uma mulher.

Depois, como manda o António, foi só fazer as contas, completar o pazle. Conclui, brilhantemente, que o sítio para onde ia, de onde este cavalheiro raramente se afastava, era um sítio sem chuva, exactamente o que eu procurava e não tinha em Istambul. Era perfeito.
Quando aterramos, disse-lhe "Adeus, vai pela sombra", ele respondeu "Cristiano Ronaldo", e calcei as sandálias que estavam no fundo da mala. Estava calor no Egipto.

Ao contrário de todas as pessoas a quem perguntei antes de vir, gosto do Cairo. Há barulho, multidões, sujidade, trânsito, instabilidade, um certo caos que atrai um viajante como eu, um turista de esplanadas e praticante de trekking urbano. E é barato. Dorme-se por 5 euros, come-se por 2 e anda-se de metro por 12 cent. Como tenho poupado na cerveja (sóbrio há 5 dias), decidi ficar num quarto ultra luxuoso de 10 euros, um "single private" com duas camas e com o "WC ensuite" que podem ver na fotografia. Invejosos?

No primeiro dia, visitei o museu. Normalmente não ligo a nada com mais de 50 anos, mas devia estar com febre, ou estou velho, e até dei por mim a tentar decifrar hieroglifos e enfiar-me de fininho em tours para ouvir as explicações dos guias, de tão interessante tudo aquilo me pareceu. Numa das alas, estão expostos todos os tesouros de Tutancámon, o faraó que morreu adolescente, retirados do seu túmulo, em Luxor. Fiquei fascinado com a inteligência do rapaz, da forma como tinha conseguido esconder as playboys e os papiros porno, que, mesmo passado tanto tempo, com vários peritos a vasculhar, ainda não tinham sido descobertos (as minhas revistas demorariam uns 3 minutos a aparecer). Mas o meu fascínio não foi longo. Numa sala mais à frente estavam as suas colecções de colares, pulseiras, frascos de perfumes e óleos,... Era claro que este adolescente faraó não ligava a playboys, e devia gostar mais de vestir o Ken do que a Barbie.
O estado degradado, decadente, do museu, que recebe milhares de turistas, e, portanto, tem uma receita que o permite manter-se, deixou-me curioso para ver outros espaços públicos com menos recursos.

No dia seguinte, fui a Guiza, ao jardim zoológico. A entrada para nacionais custa o mesmo do que uma viagem de metro, e a minha, para estrangeiro, foram 2eur. Não há estrangeiros.
Como o preço das entradas é tão baixo, o zoo tornou-se um parque normal, de merendas, para namorar, pedir, dormir, jogar à bola, mas com animais enjaulados lá pelo meio. Tudo sujo e a cair, claro. Vi um homem pescar, à socapa, na vala dos crocodilos; tratadores a pedinchar moedas e os seus macacos amendoins; um pastor alemão que dividia a casota com um chacal; uma gaiola para cocker spaniels (infelizmente já extintos);... Acho que mais depressa esqueço a torre Eifel do que esta visita. Por 1.5eur, um extra, fazemos festas nos leões, metemos a cabeça na boca de um elefante, conversamos com os ursos, e pintamos no focinho a cara do nosso bicho favorito. Uma animação.
Os animais não parecem ter fome, mas, como em todos zoos, é um crime estarem presos só para nos matarem a curiosidade. Vai dar ao mesmo do que ter cães em apartamentos, ver gatos à janela ou periquitos em gaiolas. Tão cedo não vão deixar de existir. É fácil confundir a felicidade de um animal com a sua resignação, então vamos continuar a tê-los.

Vou ficar mais uns dias pelo Cairo. Ainda nem vi as pirâmides. Depois, combinei dar uns mergulhos no mar vermelho. Lavar-me. E quero fazer um cruzeiro foleiro no Nilo. E ir a Beirut. Só não sei quando começo a descer e chego ao Sudão. A este ritmo, gasto o dinheiro todo por estas bandas e tenho de mudar o título para "1/4 de volta ao mundo 80 elias".

Beijos (saudades...)


17.10.11

quase no Cairo


​​Notícias rápidas de Istambul.

​Está frio e a chover. Ainda não parou desde que voltei de Lisboa, onde, pelo contrário, alguém se esqueceu de mudar o termostato para a posição 'Outono'. É daquela chuva londrina, chata, paciente, que passado algum tempo nos deixa encharcados.
Então, passo os dias de tasco em tasco, de chá em chá, de petisco em petisco, à conversa com quem também está preso pelo mau tempo, ou pelos petiscos. Não é má vida e aprendem-se umas coisas, mas está na altura de mudar de sítio. Mudar o tempo é mais dificil.
Assim, vou já amanhã para o Cairo, que fica no Egipto. Se, quando chegar, não estiver um calor do caraças, daquele que é preciso andar encostado aos prédios para apanhar com as pingas dos ares-condicionados, vou directo para Assuão, no sul. Se quisesse chuva e frio tinha ido para a Noruega, pescar bacalhaus.

​​Como quando parto em viagem vou sempre com a mania que sou Sherpa, que consigo passear nos Himalaias com a casa às costas, e passado uns dias percebo que não passo de um ser fraco e preguiçoso, aproveitei para deixar meia mala em Lisboa, e continuar mais leve, em peso e preocupações. Entre cuecas, chinelos, camisolas, a própria mala, ficou também o computador. Actualizar o blogue agora é mais difícil, principalmente colocar fotos. Se isto ficar com muito mau aspecto, não estranhem.

É bom pensar que, se o avião não cair, daqui a umas horas estou em África. ​
Depois dou notícias menos rápidas.
Beijos 

7.10.11

istambul




Estou em Istambul, que é uma cidade. E é gigante. Posso ter-me enganado a contar, mas devem ser 13120596 habitantes, de todos os tipos. Liberais, conservadores, indiferentes, modernos, estranhos, abstémios, bêbedos, meninos vestidos de meninas que mostram tudo, outras que não mostram rigorosamente nada, de tudo. E, até agora, não vi grandes desentendimentos entre eles. Estar aqui, num fim-de-semana de sol, quando todos saem à rua, é… lindo.   

Por isso, poupem uns trocos, desliguem a net e a tvcabo de casa, se tiverem algum filho a mais, vendam-no, ponham os outros a render, e venham, vale a pena. Depois, despacham os monumentos bonitinhos e os bazares em 2 horas, deitam fora o mapa, e quando estiverem perdidos, é quando a visita começa a valer a pena. Mais tarde ou mais cedo vão dar ao rio ou ao mar o que pode ser perigoso porque os turcos ainda não adoptaram o nosso sistema de colocar contentores, vedações e linhas férreas para nos impedir lá chegar e para proteger dos reflexos indesejados, da brisa gelada e do ensurdecedor barulho das ondas. Encontrarão aqui muita gente imprudente a divertir-se, mas cuidado. 

O melhor é apanhar um barco e sair. Se tiverem sorte, apanham um para o Harem. Sim, vai-se de barco, e, talvez por isso, aquilo cheira um pouco a peixe (isto pode não ser novidade para alguns). Se for caso disso, porque nunca se sabe, é fácil comprar viagra na rua. Sanguessugas, também, mas para outros propósitos. Aposto que estão a pensar o mesmo que eu - Como ficarão elas, normalmente tão molengonas, depois de experimentar sangue com viagra? Tumba? Não encontrei nenhum estudo sobre isso. E será que a ciência já chegou a alguma conclusão sobre comer melancia e beber vinho tinto ao mesmo tempo? Supostamente é desagradável, empedra o estômago e mata. E há alguns avanços na vacina contra a ressaca? Desistiram? Gastam o dinheiro todo em paludismos e HIVs… Tenho sonhos recorrentes em que chego a uma enfermaria, mostro a nádega esquerda (a direita já está muito estragada) e digo: "Espetem, por favor, a salvadora (nome comum da vacina), e, já agora, juntem a da gripe, quero poder embebedar-me nas correntes de ar". 
Já me perdi. Hoje queria escrever isto direitinho, com alguma informação útil e sem grandes parvoíces, mas é tão difícil. Pareço o um cego a tentar escrever num iphone, só sai asneira. 
Mas continuo, não desisto facilmente. 


Istambul, a tal coisa gigante que é uma cidade, não é o sítio mais barato para dormir. Depois de Pamukkale, onde quase me pagaram para ficar com um quarto, as minhas esperanças eram outras. Então dormi em camaratas, a última com 21 camas, por 8 ou 9eur, mas cheio de saudades de voltar a ouvir só o meu ronco, que é bastante relaxante (é opinião geral).

Após uma árdua procura, encontrei um quarto a um preço razoável, 16eur, com janela. Fiquei. Era um hotel muito frequentado por senhoras que fazem o turno da noite, o que, só por si, não é mau. Mas, e isto já vos deve ter acontecido então é fácil de perceber, quando olhamos de manhã para a almofada e surge a dúvida - Será que fui eu que me babei ou esta mancha já cá estava?, está na altura de descobrir outro sítio para dormir. Por esta e outras dúvidas, esta e outras manchas, duas noites depois, mudei. Agora vivo como um sultão. Pago 22eur mas até uma toalha me emprestam. Tenho um edredão. Como estas extravagâncias não podem durar para sempre, mais uns dias e volto a ter companheiros de quarto. Há coisas bem piores.

Já escrevi muito. Chega. E repararam, nem uma piada sobre o Steve Jobs. Em cima quase escrevi "Pareço um Steve Jobs a tentar escrever num iphone, não sai nada.", mas achei que era de mau gosto, a família dele pode seguir o blogue, então decidi gozar com os cegos. Aos poucos torno-me um gajo sério.   
É quase meio-dia, vou beber uma Efes e dar uma volta. Ainda não vi outra cerveja turca. É estranho, é como só existir o Benfica, não há rivalidades estúpidas. Mas não é grave, só com esta já consegui chegar ao hotel tão desequilibrado que tive de fazer o xixi sentado. O curioso é que, mesmo assim, consegui sujar tudo num raio de 2 metros da sanita. É um dom. Coisas de homem.

Vou a Portugal de 10 (2a-feira) a 13. Tenho de ver umas pessoas e resolver uns assuntos. Sempre sonhei dizer isto - Vou ali resolver uns assuntos. Importante. Se alguém quiser pagar um copo numa dessas noites, devo andar pelo bairro. 
Beijos


Já me esquecia. Decidi voltar a usar chupeta.