20.11.11

assuão - wadi halfa



Estou em Assuão. Antes, estive no Líbano e uns dias no Cairo. Amanhã, se acordar a tempo, vou para o Sudão.

Tenho pena de deixar o Egipto nesta altura, quando volta a aquecer. Estão marcadas eleições para a próxima semana e, na rua, a confusão já é grande. Mas a minha viagem é outra; está na hora de partir.

A vontade de escrever, de actualizar o blogue desaparece ao mesmo tempo que ando para sul, e é esse o caminho. São os ares preguicosos de África, ou a necessidade de desligar, de me desligar. Qualquer dia volto à carga, é só passar o deserto.

E está tudo bem. Tudo óptimo. Pela frente tenho 24 horas num barco africano, e depois não faço ideia. É para baixo.

11.11.11

cairo, luxor e hurghada (parte 2)


Estou em Beirute, mas isso pouco interessa. Vou escrever sobre Luxor e Hurghada, é a parte 2 - O regresso do janquinzinho maldito.

Do Cairo, onde estava no post anterior, apanhei um comboio para Luxor, que fica a umas 8 horas, lá pró meio do país,  nas margens do Nilo. Durante séculos foi capital da civilização egípcia então está cheio de coisas que atraem turistas. Coisas vazias, na sua maior parte. Os templos e túmulos há muito foram limpos e pilhados e o seu conteúdo encontra-se em museus e colecções privadas, espalhados pelo mundo. Abre-se a boca de espanto umas quantas vezes, mas tem-se a sensação que só nos estão a dar os lindos embrulhos,  houve algum espertalhão ficou com os presentes.
 
Para além dos turistas e dos arqueólogos de bolsos largos, curiosamente, Luxor também atrai terroristas. Gostam de todo o sul do Egipto, ao que parece. É seco, a humidade faz mal às bombas. Nos últimos anos têm estado mais sossegados, mas em cada explicação os guias, quase com prazer, juntam: "no ano X houve aqui um ataque com Y mortos e/ou Z raptados". Sempre traquinisses das piores. Mas não fui morto nem raptado, o que foi simpático da parte deles, e dois dias depois dei de frosques. Deixei um papel a agradecer, que terminei com "Amanhã vou para a Grécia, espero encontrar-vos lá. Beijocas". Tomem, gregos. 


A seguir, Hurghada, junto à costa. Um lugar feio, cheio de russos e resorts. Gosto de sítios feios (russos e resorts, passo), mas não foi isso que me levou até lá. Infelizmente, fui mergulhar.

Sempre achei que existem melhores formas de passar o tempo do que andar de fato colado ao corpo a ver peixinhos coloridos, e que até ter um screensaver no computador com uma animação a imitar o fundo do mar pode diminuir o ritmo de crescimento do bigode, mas há sacrifícios que valem a pena, e tinha aqui uma óptima oportunidade de fazer inveja ao meu pai. Era de aproveitar. O meu pai, o João, é um gajo que usa barbatanas em vez de pantufas, vê os filmes do Cousteau com a máscara metida (não sabe porquê mas vê melhor do que com os óculos...), só respira pela boca, sai da cama como se estivesse a saltar do barco, e tem um relógio de pulso a que chama "computador" (usa-o para medir a pressão do chuveiro), mas nunca mergulhou no mar vermelho. Ia ficar piurça de inveja ao descobrir que eu lá andava, e isso alegra-me.

Assim foi. Deixei a testosterona no bar do hotel e fui tirar um curso de mergulho. O mais barato que encontrei, naturalmente. Como não me afoguei vez nenhuma, não me arrependo da escolha, mas reconheço que é asneira poupar num curso destes, há demasiadas coisas que podem correr mal e convém estar preparado. Basicamente, fui lançado à água sem formação teórica e muito pouca prática. Tira a máscara, põe a máscara; tira a coisa que manda ar, volta a meter; sem atestado médico; não fiz o teste escrito, nada. Mas passei com distinção, e tenho um certificado que o prova.

Debaixo de água é tudo bonitinho, como mostram nas brochuras, mas o que não estava à espera, e por isso achei interessante, foi a confusão, o trânsito submarino. Junto ao meu barco estavam outros 15, e infindaveis no horizonte, todos carregados de tipos com botijas às costas. Lá em baixo eram cardumes humanos e um ou outro saco de plástico a voar por perto. Parecia o Cairo. Até tive saudades. É pena não haver esplanadas submersas porque passavam-se ali umas horas agradáveis a ver os gajos nadar, borbulhar e estragar corais.

Depois dos mergulhos vinha o triste ritual das cadernetas. Os "meus colegas", gajos e gajas com idade para ter juízo, sentavam-se em círculo e apontavam os peixinhos que viram, a temperatura da água, as profundidades, comparavam cromos mais antigos e agendavam outros para juntar à colecção. É deprimente ver alguém com mais 13 anos excitar-se com uma caderneta de cromos. Antes ver um puto a fumar. Aquela lamechice mexeu tanto comigo que cheguei a vomitar, várias vezes, pelo nariz, e o mar estava calmo.
Já passou. Apaguei as fotos onde aparecia naquelas figuras ridículas e estou a embebedar-me regularmente para que este episódio se apague da memória. Matar células. 


Saí de casa há 2 meses, o que não é importante. A Ana e a Bárbara fazem anos, e isso sim, é importantíssimo. Parabéns.
Domingo volto ao Cairo.
Beijos


6.11.11

cairo, luxor e hurghada (parte 1)


Já não escrevia aqui há algum tempo. Para resumir: estava no Cairo, saí, e voltei. E correu tudo muito mal. Aliás, como sempre. Vivo um martírio, е só vai piorar. (acabei de ver os jornais portugueses e percebi que para manter este blogue actual, no seu tempo, tenho de escrever de uma forma mais fatalista, mais testemunha de jeová, como se o fim do mundo já tivesse acontecido e só estamos a fazer tempo até que ele exploda, de vez).

Do princípio, então. No Cairo, antes de voltar ao Cairo. Foram dias horríveis! (bom começo)

Fui, finalmente, ver as pirâmides. Já as tinha visto na televisão, num programa de culinária, então não foi grande a surpresa. Não esperava encontrar esferas. Se estivermos cá pelo bairro, vale a pena a visita, se não, há outras coisas para fazer primeiro. O lado piroso dos suvenires, das excursões, dos trafulhas e dos passeios de camelo no "deserto", e a imagem delas, vistas de fora do parque piramidal, no meio dos prédios e carros, tem alguma piada. Infelizmente, não assisti ao espectáculo de luzes, que deve ser magnífico. A beleza dos focos de luz e lasers projectados na esfinge deve inspirar-nos até à velhice.
Voltei a encontrar o Nuno, que veio numa das excursões do cruzeiro para onde fotografa. Tinha estado com ele em Istambul, na China. Continua parvo, felizmente. Fez-me o belo retrato que está lá em baixo. 
Mas foi um dia péssimo. E a vida é muito triste.

Mais notícias más...

Quero ir ao Sudão, que é muito mau, está cheio de areia e pessoas ruins - ouvimos da imprensa e outras fontes esclarecidas. Podia bem viver sem ter pisado a Grécia, aquele país de esterco de que já falei, mas se não pisar e arrastar os pés pelo Sudão fico arreliadinho. Agora até há dois, o do Norte e o do Sul, ou, se olharmos de lado, um à esquerda e outro mais à direita. Por razões que demoram mais do que duas linhas a explicar, quero pisar o do Norte.

Para entrar, preciso de um visto, e passei uns dias a tentar tirá-lo. Nada. Na embaixada ouve-se o habitual "Espere ali", mas nunca se sabe para o que é que se espera, sendo o mais normal não se esperar para nada, nem sequer sermos atendidos. Quando aparece uma sudanesa jeitosa, fixa-se nela o olhar e passam-se bem umas 3 horitas naquilo, mas se não aparece nenhuma, é desesperante. Estive horas a ensinar português a outro desesperado, em troca de umas asneiras e frases de engate em arábico. Tudo o que consegui, além das úteis asneiras, foi saber precisava de duas fotografias tipo passe (que tirei e ficaram extraordinárias) e de um papel da embaixada portuguesa. Assim que lá entrei ouvi o Dino Meira cantar "Voltei, voltei. Voltei de lá. Ainda agora estava em França e agora já estou cá". Quase morri ali de saudades. Foi por pouco. Ainda me apanharam do chão. Mas depois de ser obrigado a ver o resto do programa da manhã com o Jorge Gabriel e a outra tipa gira que antes era loira, recuperei, e aguento mais uns tempos sem uma feijoada.
Amanhã volto a tentar. Como talvez seja possível comprar o visto na fronteira, não estou muito preocupado.

As outras tragédias ficam para depois. Estou a perder o hábito de estar em frente a um computador então farto-me depressa. Amanhã escrevo sobre Luxor e Hurghada.
E tem sido difícil encontrar ciber-cafés. Há uns anos tropeçávamos neles. As pessoas têm net em casa e os turistas, que raramente são pessoas, carregam um computador ou um iphone por onde andam. Deixou de ser bom negócio. Na Índia cheguei a ir a ciber-sapatarias e outros sítios estranhos, sempre com os teclados pretos, do suor e pó acumulado. Uma vez, em Caxemira, militares fizeram uma rusga séria, AK47s apontadas às cabeças, no ciber onde estava, e bisbilhotaram o que estavamos a fazer. Não se mostraram interessados com os sites roupa interior que eu estava a consultar e sairam sem se despedir. É uma pena perderem-se estas coisas.

Vou vestir a burca e almoçar. Não dá jeito a comer mas, a seguir, para palitar os dentes, é o céu. Posso chafurdar à vontade com a boca toda aberta, sem ter de me tapar com a outra mão. É importante manter uma boa higiene oral quando uso burca. Os maus odores concentram-se naquela zona e deixam-me meio zonzo.

Veijos


i