11.11.11

cairo, luxor e hurghada (parte 2)


Estou em Beirute, mas isso pouco interessa. Vou escrever sobre Luxor e Hurghada, é a parte 2 - O regresso do janquinzinho maldito.

Do Cairo, onde estava no post anterior, apanhei um comboio para Luxor, que fica a umas 8 horas, lá pró meio do país,  nas margens do Nilo. Durante séculos foi capital da civilização egípcia então está cheio de coisas que atraem turistas. Coisas vazias, na sua maior parte. Os templos e túmulos há muito foram limpos e pilhados e o seu conteúdo encontra-se em museus e colecções privadas, espalhados pelo mundo. Abre-se a boca de espanto umas quantas vezes, mas tem-se a sensação que só nos estão a dar os lindos embrulhos,  houve algum espertalhão ficou com os presentes.
 
Para além dos turistas e dos arqueólogos de bolsos largos, curiosamente, Luxor também atrai terroristas. Gostam de todo o sul do Egipto, ao que parece. É seco, a humidade faz mal às bombas. Nos últimos anos têm estado mais sossegados, mas em cada explicação os guias, quase com prazer, juntam: "no ano X houve aqui um ataque com Y mortos e/ou Z raptados". Sempre traquinisses das piores. Mas não fui morto nem raptado, o que foi simpático da parte deles, e dois dias depois dei de frosques. Deixei um papel a agradecer, que terminei com "Amanhã vou para a Grécia, espero encontrar-vos lá. Beijocas". Tomem, gregos. 


A seguir, Hurghada, junto à costa. Um lugar feio, cheio de russos e resorts. Gosto de sítios feios (russos e resorts, passo), mas não foi isso que me levou até lá. Infelizmente, fui mergulhar.

Sempre achei que existem melhores formas de passar o tempo do que andar de fato colado ao corpo a ver peixinhos coloridos, e que até ter um screensaver no computador com uma animação a imitar o fundo do mar pode diminuir o ritmo de crescimento do bigode, mas há sacrifícios que valem a pena, e tinha aqui uma óptima oportunidade de fazer inveja ao meu pai. Era de aproveitar. O meu pai, o João, é um gajo que usa barbatanas em vez de pantufas, vê os filmes do Cousteau com a máscara metida (não sabe porquê mas vê melhor do que com os óculos...), só respira pela boca, sai da cama como se estivesse a saltar do barco, e tem um relógio de pulso a que chama "computador" (usa-o para medir a pressão do chuveiro), mas nunca mergulhou no mar vermelho. Ia ficar piurça de inveja ao descobrir que eu lá andava, e isso alegra-me.

Assim foi. Deixei a testosterona no bar do hotel e fui tirar um curso de mergulho. O mais barato que encontrei, naturalmente. Como não me afoguei vez nenhuma, não me arrependo da escolha, mas reconheço que é asneira poupar num curso destes, há demasiadas coisas que podem correr mal e convém estar preparado. Basicamente, fui lançado à água sem formação teórica e muito pouca prática. Tira a máscara, põe a máscara; tira a coisa que manda ar, volta a meter; sem atestado médico; não fiz o teste escrito, nada. Mas passei com distinção, e tenho um certificado que o prova.

Debaixo de água é tudo bonitinho, como mostram nas brochuras, mas o que não estava à espera, e por isso achei interessante, foi a confusão, o trânsito submarino. Junto ao meu barco estavam outros 15, e infindaveis no horizonte, todos carregados de tipos com botijas às costas. Lá em baixo eram cardumes humanos e um ou outro saco de plástico a voar por perto. Parecia o Cairo. Até tive saudades. É pena não haver esplanadas submersas porque passavam-se ali umas horas agradáveis a ver os gajos nadar, borbulhar e estragar corais.

Depois dos mergulhos vinha o triste ritual das cadernetas. Os "meus colegas", gajos e gajas com idade para ter juízo, sentavam-se em círculo e apontavam os peixinhos que viram, a temperatura da água, as profundidades, comparavam cromos mais antigos e agendavam outros para juntar à colecção. É deprimente ver alguém com mais 13 anos excitar-se com uma caderneta de cromos. Antes ver um puto a fumar. Aquela lamechice mexeu tanto comigo que cheguei a vomitar, várias vezes, pelo nariz, e o mar estava calmo.
Já passou. Apaguei as fotos onde aparecia naquelas figuras ridículas e estou a embebedar-me regularmente para que este episódio se apague da memória. Matar células. 


Saí de casa há 2 meses, o que não é importante. A Ana e a Bárbara fazem anos, e isso sim, é importantíssimo. Parabéns.
Domingo volto ao Cairo.
Beijos


6 comentários:

Anónimo disse...

Ehehehe! Altamente.

Andavas de farpão? Tipo o um desses Deuses Gregos mais importante, daquelas que usa gravata!


Andaste naquelas scooters/reboques submarinas para pessoas? Caso aparecesse qualquer bicho?

Percebo-te perfeitamente, mas a uma escala rural. Sempre gostei de pesca submarina. Ainda me lembro com saudades de quando ia para o rio Teixeira pescar com dinamite. Depois vieram os gajos com canas de pesca em fibra de carbono, barcos de "rafting" e, claro, os peixes não gostaram e vão embora.

Anónimo disse...

Ainda bem que voltaste a por os pés em terra! Se bem que teria adorado ver retratos do trânsito submarino...
cg

Anónimo disse...

É reconfortante saber que continuo a ser uma referencia para ti eheheh
JE

Anónimo disse...

Pronto, admito que a inveja é muita
JE

2 de Três disse...

Apagar as fotografias do "fato colado ao corpo" é que está mal!!!

Anónimo disse...

e as fotografias dos peixinhos debaixo de água? Sem provas não acredito....
MartaF