19.12.11

etiópia



Para despachar os menos pacientes… Um fino, na Etiópia, custa 4birr, 0,23usd (iupi). Só uso dólares, desisti dos euros. Quando voltar a Portugal já não existem por isso decidi esquecê-los. Ainda bem, tenho saudades dos "duzentos paus" e dos "três contos". E depois de dez finos, dizer "quarenta biiirrrrrrrrss", também tem piada.

Por sofrer de uma falta de cultura crónica, uma doença grave, desconhecia, quase por completo, a Etiópia. Era, para mim, pouco mais do que país de coitadinhos, uma Suécia ao contrário. Quantas boas noticias se lembram de ter lido sobre a Etiópia? Mas tive muitas surpresas, das boas, não como as notícias.
A história do país é interessante, e, curiosamente, tem algumas parecenças com a nossa. Há castelos com influências portuguesas; fizeram uma revolução em 74 para se livrarem de um regime fascista; são, em maioria, cristãos, apesar de terem sido incomodados pelos árabes; têm o esqueleto da Lucy, o mais velho hominídeo encontrado, com 3,2 milhões de anos e 6 dias, e nós temos o esqueleto da irmã Lúcia, a velha dos óculos mais graduados.
A Etiópia nunca foi colonizada, o que não é comum nos países africanos, e isso torna-a única. Deve haver outros, mas não me lembro de nenhum, tenho os tais problemas de falta de cultura. Os italianos tentaram lá ficar, e conseguiram durante 6 ou 7 anos, mas, além de matar gente e beber macchiatos, que ainda se podem pedir em qualquer tasco, pouco fizeram.

Outra surpresa foram as mulheres etíopes. Bem jeitosas. De vez em quando, nas longas viagens nas carrinhas, onde eu nunca encontro um espaço livre, as senhoras pegam em mim e esmagam-me contra elas até se conseguir fechar a porta, ou até entrarem mais sete. E lá vou, horas, espalmado, a respirar só de um pulmão, mas com um sorriso enorme. Já aconteceu fazer viagens à noite e só ao amanhecer, com luz, perceber que estive esmagado com uma mulher linda de morrer. As primeiras palavras que saem, sem pensar, são "queres casar comigo?", ao que elas sorriem, não entendem, ou entendem e fingem que não. Nada muda, nem no meio de África. Depois digo "bom dia!", fui bem educado.
Isto ajuda, mas continuo com medo destes autocarros e das Toyotas Hiaces. Não está fácil. Continuam a ser rapazes irresponsáveis a conduzi-las, gajos que ainda não viveram tempo suficiente para ganharem amor à vida, e que arriscam mais do que devem. A última viagem, num autocarro com umas 50 pessoas mal sentadas, durante 24 horas e com duas paragens de meia hora, só teve um condutor. Perguntei se ele não tinha sono mas explicaram-me que o rapaz mascava uma erva "mágica", comum nesta zona, e perdia a vontade de dormir. Experimentei aquilo, que é como mascar folhas de coca, só para comprovar que ainda nada me tira o sono. Tinha acabado de ler a biografia do Keith Richards onde ele conta que, por fortes magias, chegou a estar nove dias sem dormir, e consegui vir descansado.

No norte, estive em Gonder e Bahir Dar. A paisagem, de montanha, é incrível. Em Bahir Dar apanhei peregrinações de cristãos, e dos pedintes que os seguem. Pedintes a sério, nus, leprosos e esfomeados, indiastyle. Muitos. Ao mesmo tempo, chamou-me à atenção as dezenas de pessoas na rua com balanças de casa de banho, onde todos se pesam por 0,25birr. É a elegância acima de tudo. Ser magro é importante, e os etíopes são mestres nisso.

A seguir, desci para Adis Abeba, que, apesar do nome estúpido, é a capital do país.
É uma cidade grande, aberta, e segura, e não muito interessante, sem nada de realmente excitante. É segura, segundo padrões africanos, porque me tentaram assaltar três vezes. Felizmente, a não ser no cinema, o velcro faz barulho e ouvi quando me estavam abrir a mala. Eram grupos de miúdos, em que um vendia qualquer treta e os outros brincavam aos carteiristas. Com uns pontapés a coisa resolveu-se, mas não deve faltar muito até acontecer, até serem bem sucedidos. As cidades grandes do Quénia e da Tanzânia têm má fama. Chateou-me a passividade das outras pessoas que, ao verem o que se passava, não mexeram um dedo. Pelo menos, não bateram palmas. Se calhar não lhes agradou o final. Deixei de andar com a máquina fotográfica e desde que não me violem, ou que o façam com jeitinho, que sejam carinhosos, não é o fim do mundo. É mau não poder fotografar.

À noite, o ambiente é mais pesado. Mas, pelos piropos e o preço da cerveja, vale a pena sair. A zona onde fiquei, a Piazza, estava cheia bares e raparigas simpaticas que me chamavam, gritavam "és um rapaz muito bem parecido", e outras coisas que só a minha mãe diz, e enchem o ego. As causas e as consequências da profissão preocupam, mas elas são uns amores. Só é pena perceberem tão rápido que tenho o dinheiro contado para o vinho e pararem de dizer aquelas coisas bonitas.

Cheguei ontem a Nairobi, bebi uma Tusker, e caí na cama. Passei 4 dias em viagem, e, quando cheguei, estava morto. Pelo cheiro, já em decomposição. Tinha planeado voar de Adis para Nairobi, por terra era complicado, mas pensei o habitual "que se lixe, só se vive uma vez e poupam-se uns trocos", e parti. Grande parte do percurso é uma zona de ninguém, com péssimos caminhos, no meio do nada, ou no meio do mato. É o sítio de onde recebemos as noticias de fome e refugiados, as que conhecia da Etiópia e não estava entusiasmado em ver. Li vários relatos de pessoas que fizeram a viagem, mas nunca de pessoas que a repetiram, e compreendo bem porquê. A incerteza do que se passara a seguir, o esforço físico, e a insegurança, principalmente a viajar sozinho, é muito grande. Foi a viagem mais difícil que fiz, e andei por sítios meios estranhos do mundo. Mas faz-se. Agora que acabou, estou contente por o ter feito. Posso voltar, mas ao volante um jipe enorme, confortável, a fazer pó e a ver as pessoas lá de cima. 
E ainda fui atacado por elefantes raivosos que espumavam pela tromba (faziam bolinhas de ranho) e tocavam violentamente uma sineta quando ouviam o barulho de moedas. Horrível!

Há umas coisas que quero fotografar em Nairobi, mas é uma cidade demasiado violenta passar o Natal, então daqui a dois ou três dias ponho-me na alheta para a Tanzania ou o Uganda, ainda não decidi. 

Não se esqueçam da minha prenda.
Beijos



(moyale, fronteira entre a etiópia e o quénia)   

2.12.11

sudão



Salamardeco!
Arranjei, finalmente, um tempito para escrever. Não parei desde que entrei no Sudão. Armado em Bob Geldof, decidi ajudar, tentar proporcionar um melhor futuro às pessoas que encontro nesta parte de África. A pessoas que, como dizia o Albert King, "se não fosse a má sorte, não tinham sorte nenhuma". Então, passei estes longos dias, do nascer ao fim do sol, a ensinar crianças e adultos a saltar à corda. Tão importante como ter um quilo de arroz, como vocês sabem. Mas estou exausto. Ser uma Madre Teresa é mais exigente do que pensava. A recompensa, devo dizer, é enorme, e tenho-a no sorriso dos poucos que conseguem levantar uma perna para deixar passar a corda.

Mas vou contar o meu percurso no Sudão.

A viagem de barco entre Assuão e Wadi Halfa, para deixar o Egipto, foi boa. Como não morri, correu bem. Foi por pouco. Dormi no convés, ao relento, e se a temperatura descesse outro grau não estava agora dar notícias. Podia ter dormido no interior, mas aí sim, o cheiro a gasóleo e chulé era letal. Conheci gente estranha e interessante, e vi um céu tão estrelado que não precisou da lua para iluminar a terra. Valeu a pena.

Em Wadi Halfa esperava apanhar o comboio que vi no Pólo a Pólo, do Michael Palin, até à capital, Khartoum. Era velho, lento, lindo. Mas vim atrasado, a linha foi desactivada há uns anos. Chorei três horas e meia, desesperado, como se estivesse a ser obrigado a ouvir um disco dos Xutos, mas nem assim a reactivaram. Gosto de andar de comboio, no entanto, o meu problema era a alternativa, era fazer a viagem numa carrinha cheia de gente, numa Toyota Hiace. 

Já apanhei tantos sustos em Toyotas Hiaces - o pior, no Peru, com 21 passageiros, um cavalo ao volante, e um precipício - que estas viagens entraram para a minha lista de medos. E é uma lista curta, tenho uma meia-dúzia deles, é preciso ser algo realmente aterrorizador para estar incluído. Posso partilhá-la. 
Lista de medos: 1- Viagens longas em Hiaces apinhadas; 2 - Insectos com mais de 1,5cm de comprimento; 3 - Ficar preso num elevador ao som de versões em canto gregoriano de músicas conhecidas; 4 - (este é íntimo, não quero contar aqui, mas tem a ver com a próstata); 5 - Convidarem-me para jantar e a emenda ser bifes de seitã com salada de pimentos; e 6 - Velhas com barba que me tratam por "menino".
Com estas informações, o meu arqui-inimigo, o temível Joaquim José, deve estar a esfregar as mãos, vai fazer-me a vida negra. Ele não perdoa. 
Como devem imaginar, não temos muito com que nos distrair no deserto. É grande e monótono. Então, para matar umas horas, uns dias, decidi tornar-me um super-herói. Era isso ou voltar a cortar as unhas, que já estavam pela carne. Criar o terrível arqui-rival foi o primeiro passo. O segundo, foi inventar um nome heróico. Pensei em dois, Sr Mamede das Farturas e Faisão Faísca, tenho de escolher. Depois, falta ir ao alfaiate tratar do fato, e arranjar super-poderes. Não me parece um processo difícil. Já estou a imaginar a queda de vendas das t-shirts do Messi, e ver o Sr Mamede das Farturas, ou Faisão Faísca, por todo lado.


Mas fiz peitaça e lá fui, de carrinha, seguindo o Nilo, em direcção a Dongola e às pirâmides de Karima (não confundir com Cadima que fica perto de Cantanhede). Para quem passou anos a ouvir que "Bonito, bonito, são as pirâmides do Egipto", ver umas tão perfeitas no meio do Sudão levou-me duvidar de tudo o que conhecia. Comeca-se por questionar a própria frase, parece forçada, inventada por conveniência ou só para fazer conversa. Um daqueles provérbios fraquinhos que cada um pode alterar conforme lhe der mais jeito. Por exemplo, para mudar de assunto, deixar as belas pirâmides sudanesas, posso dizer: "Bonito, bonito, é ter um WC quando se está aflito". E pronto, assim, começo a falar do meu funcionamento intestinal durante estes dias, um tema de extrema importância num sítio onde as casas de banho parecem portais para o inferno. As minhas fiéis tripas ultrapassaram estas viagens intermináveis sem problemas, sem pestanejar (algumas tripas pestanejam), criando uma ligeira e oportuna prisão no ventre, proporcionando dias de sossego. O contrário, nestas situações, pode ser dramático. Depois, claro, quando chega a hora, quando tem mesmo de ser, até há bandos de abutres e hienas que vêem ao engano, convencidos da morte de um animal de grande porte na zona do alívio.
Que classe tem este último parágrafo. Peço desculpa, mas hoje só dá disto. Acordei bem disposto, sem ressaca.


Passei uns dias em Khartoum. É uma cidade degradada e suja, maior e mais cara do que esperava. Como a maioria dos visitantes trabalham para companhias petrolificas e ONGs, gente que faz muito dinheiro dos recursos naturais do país, o petróleo e os pobrezinhos, o preço dos hotéis, táxis, e mordomias desse tipo, é alto. Os poços de petróleo, desde a separação do país, pertencem ao Sudão do Sul, mas o crude ainda é escoado pela costa do Norte, o que, naturalmente (estas coisas são naturais quando há muito dinheiro envolvido), tem motivado batatada forte entre eles. Ainda há vários grupos de rebeldes (rapazes com tatuagens, fãs dos Sex Pistols) em luta nos sudões, mas onde estive, além de  militares demasiado armados, tudo foi pacífico.

Andei sempre perto do Nilo, a partir de Khartoum, do Nilo Azul, onde a população vive da agricultura e pecuária, e é pobre mas não miserável. As secas que nesta parte de África são frequentes não se sentem tanto nestas zonas. Viajar aqui pode ser duro. Não sou muito esquisito com o lado logístico das viagens, se é barato e serve para os locais, serve para mim, mas, passado uns dias, pesa. Dorme-se em sítios que parecem prisões, a ver ratos no tecto e a tentar ser amigo dos gatos cá em baixo. Não há banhos e a comida é estranha, ou muito estranha. Mas as pessoas, todas, mesmo os polícias que nos repreendem por fotografar ou por falta de uma licença qualquer (é preciso papelada para tudo), são excelentes, o melhor do país. Só por elas vale a pena a viagem. Nunca senti a menor insegurança ou tive problemas em deixar a mala não guardada, e fui várias vezes convidado para beber chá e jantar. É tradição sudanesa receber bem quem está de passagem, e, vindo do Egipto, isso nota-se.

Mas é um país onde as bebidas alcoólicas, como as leis de direitos de autor na China, são proibidas. Então, passei a fronteira. Estou num sítio a que os entendidos, os homens dos mapas, chamam Etiópia, e onde uma garrafa grande de cerveja custa 60 centimos. Acho que vou gostar desta Etiópia...

Fim.
Nunca escrevi tanto na vida. Não volta a acontecer.

beijos