2.12.11

sudão



Salamardeco!
Arranjei, finalmente, um tempito para escrever. Não parei desde que entrei no Sudão. Armado em Bob Geldof, decidi ajudar, tentar proporcionar um melhor futuro às pessoas que encontro nesta parte de África. A pessoas que, como dizia o Albert King, "se não fosse a má sorte, não tinham sorte nenhuma". Então, passei estes longos dias, do nascer ao fim do sol, a ensinar crianças e adultos a saltar à corda. Tão importante como ter um quilo de arroz, como vocês sabem. Mas estou exausto. Ser uma Madre Teresa é mais exigente do que pensava. A recompensa, devo dizer, é enorme, e tenho-a no sorriso dos poucos que conseguem levantar uma perna para deixar passar a corda.

Mas vou contar o meu percurso no Sudão.

A viagem de barco entre Assuão e Wadi Halfa, para deixar o Egipto, foi boa. Como não morri, correu bem. Foi por pouco. Dormi no convés, ao relento, e se a temperatura descesse outro grau não estava agora dar notícias. Podia ter dormido no interior, mas aí sim, o cheiro a gasóleo e chulé era letal. Conheci gente estranha e interessante, e vi um céu tão estrelado que não precisou da lua para iluminar a terra. Valeu a pena.

Em Wadi Halfa esperava apanhar o comboio que vi no Pólo a Pólo, do Michael Palin, até à capital, Khartoum. Era velho, lento, lindo. Mas vim atrasado, a linha foi desactivada há uns anos. Chorei três horas e meia, desesperado, como se estivesse a ser obrigado a ouvir um disco dos Xutos, mas nem assim a reactivaram. Gosto de andar de comboio, no entanto, o meu problema era a alternativa, era fazer a viagem numa carrinha cheia de gente, numa Toyota Hiace. 

Já apanhei tantos sustos em Toyotas Hiaces - o pior, no Peru, com 21 passageiros, um cavalo ao volante, e um precipício - que estas viagens entraram para a minha lista de medos. E é uma lista curta, tenho uma meia-dúzia deles, é preciso ser algo realmente aterrorizador para estar incluído. Posso partilhá-la. 
Lista de medos: 1- Viagens longas em Hiaces apinhadas; 2 - Insectos com mais de 1,5cm de comprimento; 3 - Ficar preso num elevador ao som de versões em canto gregoriano de músicas conhecidas; 4 - (este é íntimo, não quero contar aqui, mas tem a ver com a próstata); 5 - Convidarem-me para jantar e a emenda ser bifes de seitã com salada de pimentos; e 6 - Velhas com barba que me tratam por "menino".
Com estas informações, o meu arqui-inimigo, o temível Joaquim José, deve estar a esfregar as mãos, vai fazer-me a vida negra. Ele não perdoa. 
Como devem imaginar, não temos muito com que nos distrair no deserto. É grande e monótono. Então, para matar umas horas, uns dias, decidi tornar-me um super-herói. Era isso ou voltar a cortar as unhas, que já estavam pela carne. Criar o terrível arqui-rival foi o primeiro passo. O segundo, foi inventar um nome heróico. Pensei em dois, Sr Mamede das Farturas e Faisão Faísca, tenho de escolher. Depois, falta ir ao alfaiate tratar do fato, e arranjar super-poderes. Não me parece um processo difícil. Já estou a imaginar a queda de vendas das t-shirts do Messi, e ver o Sr Mamede das Farturas, ou Faisão Faísca, por todo lado.


Mas fiz peitaça e lá fui, de carrinha, seguindo o Nilo, em direcção a Dongola e às pirâmides de Karima (não confundir com Cadima que fica perto de Cantanhede). Para quem passou anos a ouvir que "Bonito, bonito, são as pirâmides do Egipto", ver umas tão perfeitas no meio do Sudão levou-me duvidar de tudo o que conhecia. Comeca-se por questionar a própria frase, parece forçada, inventada por conveniência ou só para fazer conversa. Um daqueles provérbios fraquinhos que cada um pode alterar conforme lhe der mais jeito. Por exemplo, para mudar de assunto, deixar as belas pirâmides sudanesas, posso dizer: "Bonito, bonito, é ter um WC quando se está aflito". E pronto, assim, começo a falar do meu funcionamento intestinal durante estes dias, um tema de extrema importância num sítio onde as casas de banho parecem portais para o inferno. As minhas fiéis tripas ultrapassaram estas viagens intermináveis sem problemas, sem pestanejar (algumas tripas pestanejam), criando uma ligeira e oportuna prisão no ventre, proporcionando dias de sossego. O contrário, nestas situações, pode ser dramático. Depois, claro, quando chega a hora, quando tem mesmo de ser, até há bandos de abutres e hienas que vêem ao engano, convencidos da morte de um animal de grande porte na zona do alívio.
Que classe tem este último parágrafo. Peço desculpa, mas hoje só dá disto. Acordei bem disposto, sem ressaca.


Passei uns dias em Khartoum. É uma cidade degradada e suja, maior e mais cara do que esperava. Como a maioria dos visitantes trabalham para companhias petrolificas e ONGs, gente que faz muito dinheiro dos recursos naturais do país, o petróleo e os pobrezinhos, o preço dos hotéis, táxis, e mordomias desse tipo, é alto. Os poços de petróleo, desde a separação do país, pertencem ao Sudão do Sul, mas o crude ainda é escoado pela costa do Norte, o que, naturalmente (estas coisas são naturais quando há muito dinheiro envolvido), tem motivado batatada forte entre eles. Ainda há vários grupos de rebeldes (rapazes com tatuagens, fãs dos Sex Pistols) em luta nos sudões, mas onde estive, além de  militares demasiado armados, tudo foi pacífico.

Andei sempre perto do Nilo, a partir de Khartoum, do Nilo Azul, onde a população vive da agricultura e pecuária, e é pobre mas não miserável. As secas que nesta parte de África são frequentes não se sentem tanto nestas zonas. Viajar aqui pode ser duro. Não sou muito esquisito com o lado logístico das viagens, se é barato e serve para os locais, serve para mim, mas, passado uns dias, pesa. Dorme-se em sítios que parecem prisões, a ver ratos no tecto e a tentar ser amigo dos gatos cá em baixo. Não há banhos e a comida é estranha, ou muito estranha. Mas as pessoas, todas, mesmo os polícias que nos repreendem por fotografar ou por falta de uma licença qualquer (é preciso papelada para tudo), são excelentes, o melhor do país. Só por elas vale a pena a viagem. Nunca senti a menor insegurança ou tive problemas em deixar a mala não guardada, e fui várias vezes convidado para beber chá e jantar. É tradição sudanesa receber bem quem está de passagem, e, vindo do Egipto, isso nota-se.

Mas é um país onde as bebidas alcoólicas, como as leis de direitos de autor na China, são proibidas. Então, passei a fronteira. Estou num sítio a que os entendidos, os homens dos mapas, chamam Etiópia, e onde uma garrafa grande de cerveja custa 60 centimos. Acho que vou gostar desta Etiópia...

Fim.
Nunca escrevi tanto na vida. Não volta a acontecer.

beijos

12 comentários:

Antonio Luis Campos disse...

O teu bigode faz-me inveja...! Isso é camuflagem no seu melhor :-)

Abraço!

Anónimo disse...

Boa pa!
Etiopia estive la o outro dia, não gostei, é frio, a comida é esquesita, beber café com uma mulher sentada no meio de um andor a tratar de um fugareiro é no minimo estranho, agora faço a minhas viagens por Amsterdão sempre tem gente menos estranha, tirando umas senhoras nas, janelas, uns manifestantes a protestar contra o capitalismo, e uns senhores que vendem ervas medicinais. Em compensação paro no Kilimanjaro na vinda.
Abraço.
Marcel

Anónimo disse...

Voto no Faisão Faísca. Com FF até é mais fácil fazer o logotipo.
JE

Anónimo disse...

Eu também voto no faísca faiscão! Já estou a imaginar o traje... :)
cg

Anónimo disse...

No Worrys!




Ass: Mickas Dandy (S.Pedro de France)

2 de Três disse...

Faisão Faísca derrota qualquer Messi ahahahah

Continuação de boa viagem :)

Juliana das Farturas disse...

Ai mamede onde tu andas!!! espera até chegares a casa para veres que bonito bonito é ver um streaming do crocodilo dundee enquanto me vão ao pi. ou as músicas do tozé brito !

Anónimo disse...

na ultima foto esta um gajo igualzinho a ti atras de ti... fazem-se clones na etiopia? esse é q é o faisao fagundes?!
V

Anónimo disse...

eu tenho medo de ti assim...
primaça

Homero Caramelo disse...

Ah Artur Jorge!! Bigodaça !!

Continua o bom trabalho!

Tivemos lá...

http://www.dinheirovivo.pt/Buzz/Artigo/CIECO023689.html

Anónimo disse...

Ei, Mahomede das Farturas, isso é que é diversão!!!

Só de imaginar o focinho das Hienas, quando dão pelo engano...

Anónimo disse...

Fogo, mas ainda estás vivo!!!

Abraço CRISTO