11.10.12

(sexy time)

iagshemash,

Cheguei ao "melhor país do mundo, todos os outros países são governados por meninas". Estou no Cazaquistão. Da última vez que aqui escrevi, viajava num ferry, uma coisa enorme que mais tarde descobri que era um barco. Desta vez, estou num comboio, e não passa disso, é apenas um comboio. Parece-me que este gostava de ser um cardume de atuns, mas duvido que algum dia consiga.

Há uns tempos, quando planeei ir de Tóquio a Lisboa sem ser picado pela mosca do Jet lag, decidi encontrar uma alternativa ao transiberiano. Toda a gente o faz, e por baixo, pela Rota da Seda, deve ter mais piada, pensei. Não sei se tem mais piada, mas comprovei que por aqui não vai ninguém, ou quase ninguém. A noite passada tive um vagão inteiro só para mim. No comboio de Urumqi à fronteira cazaquisteana parecia estar num filme de terror, num cenário arrepiante em que os barulhos estranhos se multiplicam à medida que a luz desaparece. Quando os carris não ajudam, estas carruagens russas parecem um grupo de maricas em cima de um palco a lutar por um microfone. É ensurdecedor, e mete medo. Mas dormi sem sobressaltos, como costumo fazer durante os filmes.


Acordei, por volta das 8, com a policia alfandegária chinesa interessadíssima em ver todas fotografias que fiz no seu lindo país. Depois de 45 minutos a bisbilhotar o meu computador, deram-me os parabéns pelos auto-retratos mais ousados, os nus, que prometi enviar por email, e carimbaram-me o passaporte. A seguir, vieram os polícias cazaquistãos. Reviraram tudo, devagar, à espera que lhes oferecesse uns trocos para pararem. É o esquema do costume. Mas há poucas coisas que me dão mais prazer do que ver estupores a inspeccionar minuciosamente as minhas cuecas pegajosas, e nem toquei na carteira. Até a cama desfizeram, os salafrários. Deu tanto trabalho a fazer. Mas nem tudo foi mau, o pastor alemão era simpático. Suspeito que a partir de agora o Borat (chamei Mondego e Tejo aos policias) vai andar mais interessado em encontrar bolachas com creme de baunilha do que bombas e droga. Sei que não posso dar doces aos cães, foi só desta vez. Eu adoro os animais.


Na primeira paragem cazaquistaneza, onde comi uma bela caldeirada de cabrito, entrou mais gente. Passei a dividir o compartimento com um militar, o Akelbek, que terminou a folga e está a regressar ao trabalho (bater a pala), e com caixas com garrafas de álcool chinês, que nos pediram para esconder debaixo dos bancos. Contrabando, segundo o Akelbek, mas "nhiêt probliémi, ok ok". Rapidamente conhecemos mais gente e, de um dia para o outro, deixei a solidão do cenário de terror para dormir num café-cabeleireiro. Não percebo nada de nada das conversas, mas gosto deles, são divertidos. Já prometi voltar. Até estou convidado para uns dias de caça a lobos e ursos. Que horror, estarão a pensar. Mas não, a caçada é a cavalo e é tipo "sniper", de longe, então não há perigo nenhum, não precisam de se preocupar. Estou mortinho por mudar o tapete da sala.

No meio da confusão linguistica, porque entre todos não sabem mais do que 10 palavras em inglês, quando perguntei ao Akelbek se era casado, percebeu que eu me ia casar, e imediatamente se fez convidado para a festa. Está tão emocionado que sou incapaz de lhe explicar a confusão. Resultado: vou-me casar em 2013.

Aproveito para anunciar isto. Queridos pais, família e amigos ricos, estão convidados para o meu grandioso casamento. Realizar-se-á em Portugal, em 2013, assim que arranjar uma gaja. 
A minha mãe deve estar tão radiante como o Akelbek.

Hoje de manhã dei umas voltas em Almaty, a maior cidade do país, que é verde, moderna e organizada, onde me obrigaram a ver uma entrada de metro, em funcionamento desde 2010, e continuo no café-cabeleireiro por uma paisagem de estépiê, estépiê, estépiê,… até à capital, Astana. Chego amanhã, que é quando espero enfiar isto na internet. Agora é lá que se enfia. 


Isto são três dias de viagem. Peguei no computador para escrever sobre os últimos dois meses e meio na China, e assustei-me. Para quem não está habituado a escrever, resumir dois meses de viagem custa mais do que atar um dente a uma maçaneta e dar um pontapé na porta. Vou tentar fazer por partes. Estou em passo acelerado até casa e vou ter muitas horas em comboios e autocarros, deve dar qualquer coisa. 

Até breve. Beijos


25.7.12

Japão e Coreia do Sul


Ora viva,

Estou no mar. No Amarelo, segundo consta. E não está fácil, o chão abana, daqui a bocado borrifo qualquer coisa. 
Saí de Incheon, na Coreia do Sul, ontem, e faltam umas horas, daquelas que parecem anos, para chegar a Qingdao, algures na China.

Não tenho andado nada bem. Há uns dias comecei a sentir-me estranho, fraco, com princípios de camoecas, e fui a um médico que, em coreano perfeito, para que não me escapasse nada, disse, "Sr Elias, tem uma tendinite no baço". "Ai maezinha! Já fui", pensei logo. Desconhecia este tipo de tendinites mas o senhor mostrou-me as suas notas sobre os exames realizados e, apesar de não as perceber, vi que era um profissional experiente, de toda confiança. É que tal como os nossos médicos, escrevia em riscos, e quem transforma estes caracteres em linhas rectas não é um novato qualquer. 

Receoso, perguntei: "Quanto tempo tenho, Sr Dr?". "Lamento informar, mas tem uns 5 minutos. 10, no máximo". "Quê? Só? Caramba, tinha tanto por fazer, tanto por experimentar. Nunca bati num espanhol, imagine", desabafei desesperado. "Pois, sabe, é que marquei uma consulta para agora e o paciente já está à espera. O espanhol terá de ficar para a próxima visita". "Ufas, assustou-me. Mas diga-me, isto é falta de potássio, não é? Tenho comido poucas bananas". "Não, disparate. Isso é falta de Japão", diz sorrindo. "Ahhh. E tem cura, Dr?". "Ora bem...", murmurava ele enquanto passava a receita, "Primeiro, para as dores, chore, chore muito, ajuda. Para tratar a tendinite, tem duas hipóteses: plantar batatas ou voltar para o Japão"."Mas não posso plantar batatas, dá-me umas pontadas nos rins por andar baixado, e com o baço neste estado, é impossível. Ir ao Japão, é o mesmo. Já me despedi das pessoas japonesas, antes morrer do que voltar atrás com a palavra. A minha palavra é a minha honra, e só tenho isso e três pares de cuecas". "Então, chore", diz ele. "E veja lá, não reze, é uma perda de tempo". 
Como os homens não choram, imaginam o meu sofrimento nestes dias. Sou um homem muito triste.

Nunca tive uma atracção especial pelo Japão. Conheço pessoas que sim. Assim como alguns gostam da América, dos hambúrgueres, há gente que em bebé rebolou em sushi e adora tudo o que é japonês, mesmo sem nunca lá ter estado. Uma boa metade delas ainda cheira a peixe.


Uiiii… pausa. Tenho de ir olhar para o horizonte. Continuo mais tarde.
Voltei. Três dias mais tarde. Quando desembarquei, meio mareado, decidi beber uma cerveja para desenjoar. Depois de ter pago 26 cent (2 yuan) pela primeira caneca, lembro-me de muito pouco. Estes sacanas até vendem cerveja a peso, em sacos de plástico com pegas, e bebem aquilo por palhinhas. Pelo menos não perdi as calças. Estou a evoluir. Mas devo ter comido coisas estragadas, hoje não me posso afastar mais de dez passos da toalete. Aproveito para acabar isto. E sinto-me melhor da tendinite. Bem bom.


Ia no Japão...

Eu não ligo ao sushi, nunca liguei, sou de outros sabores, e o cheiro a peixe é de não me lavar cá em baixo.
Há uns 20 anos os meus pais tinham carro japonês, um Mazda 323, que, dependendo do lado que batesse o sol, ou era verde ou azul. Até aos últimos dias, quando já cresciam cogumelos nos tapetes, nunca falhou. Impecável.
Mais ou menos na mesma altura, vi o Império dos Sentidos na RTP2. Lá calhou. A partir daí os japoneses ficaram os tipos certinhos com uma pancada meio estranha, mas nunca mais tive grande curiosidade pelo o país, interessei-me por outras coisas. Até que lá fui, mais ou menos por acaso, em 2009, e fiquei morto por voltar. 
Gosto das pequenas excentricidades, dos pormenores, das soluções geniais para as coisas simples do dia a dia, do sentido estético único, de uma busca pela perfeição, até das vénias, da atenção. E ao mesmo tempo tem piada saber que eles estão cheios de falhas, longe dessa perfeição. São gajos que já cometeram todas as atrocidades que encontramos nos livros de história, têm páginas só deles, e continuam a cometer algumas. Os seus vizinhos são os que mais o sentem. Se a nós, ao homem branco, tratam bem, baixam a cabeça, é porque apanharam umas lambadas até ganharem respeito. Começou com bêbados portugueses que desembarcaram em Nagasaki com umas espadas que cuspiam balas, até aos americanos, com outras balas. Mas aos coreanos e chineses olham bem de cima, em bicos de pés, e estão sempre prontos para lhes passar a perna. Ainda no século passado a Coreia foi declarada uma colónia japonesa, quando as nossas já começavam a perder o interesse, e a China foi invadida. 

Mais do que qualquer outro povo, eles têm uma capacidade de se juntar por um objectivo único, como um rebanho, não questionando as razões, a autoridade, e isso tanto os torna perigosos como capazes de, em poucas décadas, como aconteceu depois da última grande guerra, reconstruir o país.

Foi um pouco isso que eu notei desde a última visita. Principalmente em Tóquio, estão mais focados, concentrados, mas talvez menos expansivos e alegres. Nestes anos, a crise económica agravou-se, tiveram o sismo, tsunami, fuga de radiação de uma central nuclear, e no entanto ninguém me falou sobre isso, muito menos se queixou, e estive Sendai, a cidade mais próxima do epicentro. Parece que sabem o que têm de fazer para recuperar, e que não é com conversa que lá chegam.
Não sei se já há resultados, pouco tenho acompanhado as noticias, mas este ano Tóquio foi considerada a mais cara cidade do mundo, e talvez isso já seja um sinal da recuperação. Ou não, pode tornar-se uma Luanda.

Esta conversa não me faz bem nenhum à tendinite. Um dia destes, volto.


A Coreia é outra história.
Não gostei da Coreia. Sei que estou a dar cabo do turismo deles, mas azar, cê-lá-vi.
É um país com muitas influências do Japão e da China, mas é 73 vezes menos interessante do que ambos. Não é um sítio porco nem limpo, não é caótico nem organizado, as pessoas não são brutas nem muito educadas,… É assim assim. Está no meio, como a virtude, a última coisa que um viajante procura.
É fácil compreender isto pelos carros. A industria automóvel de um país pode dar algumas indicações sobre quem lá vive (Em Portugal construímos carros alemães). Nunca se ouviu: "Olha este Hyundai, que maquinão!", ou "O meu sonho sempre foi conduzir um SsangYong." Mas ouve-se, "Olha um Kia, tem uma estética agradável e uma boa relação qualidade/preço". São aborrecidos.
Agora, com a Samsung e a LG, estão no topo das comunicações móveis, da electrónica mundial, mas nunca houve paciência para os cromos dos computadores. São úteis, como as panelas, mas só servem para aquilo.

As influências já não são só chinesas e japonesas. Em Seul, principalmente nas zonas universitárias, os catraios de vinte e poucos anos são todos iguais, tudo o mesmo. São aquelas pessoas que depois de terem tudo o que precisam, de comprar o que não precisam, começaram a consumir coisas que não gostam. É uma tendência global. É a malta que vai passear os macbooks para os Starbucks e afins - sítios que vendem café a quem realmente não gosta de café -, onde se ouve uma coisa atroz chamada smooth jazz - música para quem não gosta de música -, e conduzem, ou gostariam de conduzir, Toyotas Prius - os carros para quem não gosta de carros. Esta lista continua, e as marcas não param de crescer, é o negócio delas. Visita-se o Starbucks em vários países, em vários continentes, e não é facil descobrir diferenças na maneira vestir, de estar, dos clientes. É uma seca.

Chega de Coreia. Não é especial. O Japão e a China, sim.


Vou passar o resto do dia a aprender a escrita chinesa. Usarei um método revolucionário, rápido e simples, que me lembrei há minutos quando carregava nos botões de um elevador. Eu explico.
Há muitos milhares de anos os habitantes da Ásia eram cegos, tinham os olhos fechados, as pálpebras coladas, eram conhecidos como "os alforrecas", e, naturalmente, o sistema de leitura que usavam era o braile. À medida que foram evoluindo, abrindo do olhos - processo ainda não terminado, estão na fase que cientificamente se designa por ponto ganza -, houve uns iluminados que pegaram numa esferográfica e no alfabeto braile e começaram a unir os pontos. Um processo não muito diferente dos desenhos que as crianças fazem, unindo pontos numerados até formar um coelho ou uma vaca. É fácil perceber que, por exemplo, de se chega a . Por ser o início e terem total liberdade, apareceram uns artistas que juntaram várias letras braile e fizeram rabiscos desnecessários, complicando tudo, e criando os complexos caracteres usados actualmente. Mas a base é só uma, o braile, e é simples, até um cego entende. Estudando-o profundamente, chegarei ao significado dos gatafunhos chineses, e depois é um passo até começar a falar. Tenho quase a certeza que funcionará.

Teresa, parabéns. És a maior.
Beijos


6.7.12

Os Ensinamentos Japoneses (porque foram escritos no Japão) de Pedro Elias



O que vou escrever hoje não tem muito a ver com a volta ao mundo, mas tenho de o fazer antes de sair do Japão. Os Ensinamentos Coreanos não teriam a mesma credibilidade.
Vou tentar despachar isto rápido, como se estivesse a praticar o sexo. 
A razão é ter percebido que sou o único Pedro Elias que se desleixa com o lado espiritual da vida, da morte, da entre a vida e a morte, e essas tretas. Raios ma partam se vou ficar atrás. Os meus quatro exmos homónimos, homens que descobri na internet quando me pesquisava no google (links 1,2,3,4), têm concorrência. 


Para dar mais valor à coisa, e para não parecer que estou apenas com inveja dos outros, fiz um retiro nas montanhas, em Nikko. É verdade que foram só dois dias, mas a qualidade de um retiro não se mede em tempo, há pessoas que se retiram mais rapidamente do que outras. É o meu caso, retiro-me num piscar de olhos. E assim foi, pouco tempo mais tarde já estava longe, em Sendai, e estudava com o mais reconhecido mestre nipónico, o sensei Miyagi, imortalizado em obras clássicas como: The Karate Kid, The Karate Kid part II, The Karate Kid part III e The Next Karate Kid. O homem é mais novo do que dá ideia nos filmes. Uns quarenta anos mais novo. É a tal magia do cinema. Durante vários dias (dois, outra vez), acolheu-me em sua casa, a Miyagi Guesthouse, onde estudei intensamente todos os aspectos da sua filosofia. Curiosamente, resumia-se a pouco. Basicamente, fez um desconto de 18eur num quarto de 28 e ensinou-me a estoirar esse dinheiro em bebidas alcoólicas de qualidade questionável. Veio mesmo a calhar, eu andava com uma sede de camelo, mas, sinceramente, eram ensinamentos que já tinha tido aos 15 anos, com outros mestres. Vale sempre a pena recordar e praticar, foi isso que aprendi.


Depois, parti noutra missão. Arranjar fotografias bonitas para enfeitar isto. Não sou o maior praticante da arte da foto-bonitinha, mas esforcei-me. A apresentação é 75% do sucesso, todos sabemos. Se a Lady Gaga ou o Dalai Lama vestissem uma fatiota de trabalhar no balcão de um banco, em vez de mostrar a anca, não tinham um quarto dos seguidores. Fui a Kanazawa, onde fotografei um dos mais importantes jardins do periodo Edo. Não é o Edu da novela. Também pensei que era, mas não, é outro gajo. O jardim chama-se Kenrokuen, e, apesar de não ser mau, as árvores estão bem podadas, senti falta das mesas corridas, dos grelhadores e do cheiro a pito assado.

Estou em Quioto, o do protocolo. Amanhã vou para Fukuoka, de onde apanharei um ferry, que é um barco normal, tipo cacilheiro, para Busan ou Pusan. Não percebi, e não me apeteceu pesquisar, se é B ou P, mas fica na Coreia do Sul. 

Ao importante, 

Os 13 de Ensinamentos Japoneses deste Pedro Elias. (ia fazer 20 mas tenho sono, e acabou o "chá". Deus só arranjou 10 mandamentos…)


- Julga sempre um palhaço pela sua aparência.

- Se sabes jogar às damas, não percas tempo a aprender xadrez.

- Promete tudo quando estiveres bêbedo.

- Usa as escadas tanto para descer como para subir.

- Não ponhas Deus nem Ketchup nas batatas.

- Nega sempre a responsabilidade de uma bufa.

- Mantém uma distância de segurança de duas marcas para o veículo da frente.

- Se não ressonas, aprende.

- Mesmo sendo pato, podes sempre viver entre cisnes.

- Imagina o impossível, tenta apenas o possível.

- Não é a saltar que lá chegas.

- Escolhe sempre o caminho mais curto, e depois procura um atalho.

- A felicidade é um rojão.



Beijos. Bom fim-de-semana




... Enquanto escrevia esta coisa cá em cima ouvi o Graceland, do Paul Simon. Saiu uma edição comemorativa dos 25 anos do álbum. Que saudades de África, da música, daquele caos genial. Oiçam o coro genial do I know what I know, deve dar para perceber.

26.6.12

o regresso ao Japão


Bonsai,

Estou em Tóquio. A acreditar no que está aqui no blogue, já não é a primeira vez. O super-plano é ir daqui a casa, sem voar, como fiz em África. Passar para a Coreia, China, Mongólia, Rússia, até à Madragoa. Mas, mesmo os super-planos falham e este não depende só de mim. Vamos ver.

Entretanto, vou seguindo o meu eterno lema de viajante, Sempre que possível, junta-te a eles, que acabei de inventar e portanto admite futuras melhorias, e decidi experimentar o machismo japonês, mais concretamente, apalpar mulheres nos comboios. Alguns têm carruagens exclusivas para donzelas e não é preciso ser um génio machista para perceber que as que viajam nos vagões comuns querem algo. Aposto que neste momento está alguém a dizer "és um estúpido, são todos iguais!", mas daqui não oiço, o Japão é bastante longe. Como tal, tenho-me comportado como um autêntico macho samurai, passo dias a distribuir apalpões com uma precisão e rapidez estonteantes. "Ahhh, isso deve ser agradável", pensa o leitor. Pois, não é tão bom quanto isso. Se é verdade que o lado altruísta de apalpar alguém que o anseia pode ser compensador, a realidade é que sendo uma sociedade extremamente avançada, onde os habitantes se vestem como nos filmes de ficção científica, o uso de tecidos sintéticos é generalizado, e é de conhecimento geral que esfregar a palma da mão suada em poliéster não é particularmente gratificante, como seria, por exemplo, numa boa peça de algodão. "Ehhh, és um sortudo e só te queixas", pensa o tal leitor. Não é bem assim. É um facto que me queixo muito, sou lusitano e tenho-o nos genes, mas, já que este é um blogue sobre o mundo e as suas particularidades, é importante mostrar que os prazeres a que nos habituámos em casa não devem ser tidos como certos em outras partes do globo. Este é um deles. O leitor acena em agradecimento pela informação recebida, e continuo sem ouvir a gaja que me chamou estúpido.

Mais queixas… Tem chovido. Ao que parece, é o fim da época da chuva, o que, para nós, pouco significa. Em Portugal chove quando calha. Mas é como estar na época da azeitona, é uma altura certa do ano em que caem coisas do céu. Nos últimos dias melhorou, mas houve alguns em que caia tanta água que parecia um tsunami. Deixei de usar esta oportuna observação junto dos locais. Não se irritam, mas ficam tristes, calados, choram uns minutos, e não há paciência para meninos chorões. Meninos chorões e brasileiros, claro. Por falar nisso, aqui é sumo, não é suco. Toma.

Os preços são de morte. A alimentação não é o pior, mas os transportes, as entradas em museus, bares, os vícios e o alojamento é demais. Ficava três meses em Tóquio mas assim não duro uma semana. E tenho dormido em beliches de terceira onde pior do que o preço, a falta de privacidade, o barulho, cheiros e etcetera, é nunca saber se se está a sentir um terramoto ou se é o habitante da cama de baixo a mudar de posição. Por vezes, a meio da noite, chego mesmo a perguntar à criatura, "Mexeste-te??", ao que ele responde, "Pela décima vez, pára de me chatear", "Desculpa", digo eu sem o sentir, e continuo no paleio, "É que parecia mesmo um IV na escala de Mercalli, e, como turista, é uma experiência que não quero perder. Vir a Tóquio e não sentir a terra abanar é como ir a Nova Iorque e não ver as torres gémeas. É tão único como apanhar com a porta de um táxi. Acontece-me muito. Baixo-me para perguntar se o fogareiro está livre e apanho com a porra da porta na fuça. Esqueço-me sempre que aquela porcaria é automática. Já te aconteceu? É lixado". Por esta altura os outros animais do quarto repetem em coro, "Xate da faque ape", mas ando sem sono, é do jetlag, e sabe-me bem falar um bocadinho.

É bom voltar ao Japão, a Tóquio. Há diferenças que pensei não ia notar. Eles continuam os mesmos pequerruchos sorridentes e tímidos que comem golfinhos ao pequeno-almoço, mas depois de tudo o que aconteceu nos últimos anos é natural que qualquer coisa tenha mudado. Mas acabei de chegar, depois escrevo sobre isso. Eu, como passeador profissional, também mudei. Talvez por não ter prazos, estou menos impaciente, não tenho a urgência ou necessidade de ver, de experimentar tudo. E, numa cidade que está sempre em movimento, é um enorme luxo poder parar, não fazer puto, e descobrir japonesices com calma.

Beijos




16.4.12

Índia, Sri Lanka e Tailândia



Olá galera bacana,

Estou em Paris, no aeroporto, quase a chegar a Lisboa. E está tudo jóia. Gosto de imitar os caras da colónia das novelas. São esquisitos, os brasileiros. Oi? Depois de dois meses na Índia, no Ceilão e na Tailândia a encher chouriços, continuo à espera que o universo se rearranje e aumentem as temperaturas na China. Quero lá ir, e usar sandálias. A China é um país que vive na Ásia; sandálias são animais da família das pantufas. Tenho de explicar tudo, os meus país lêem o que aqui enfio. Não vale a pena explicar esta parte. Mas talvez alguém me possa tirar a dúvida: o plural de senil é seniles, senis ou senéis? Ando com isto há um tempo.
Dizer que estive estes dias a encher morcelas é estranho, até arrogante, mas é verdade. Os estatutos do blogue só me permitem mentir após o terceiro parágrafo. Quero ir à China no verão e nenhum mandamento me impede de divertir enquanto espero. Assim como nenhum diz que 'a estupidez tem limites'. Graças a Deus, não tem. Iupiii

Estou a ficar velho, cansado, como diria o puto do Karate Kid, "I'm not the grasshopper I used to be", e quando cheguei à Cidade do Cabo, com o corpo e a carteira a precisar de descanso, ainda sem vontade de voltar a Portugal, decidi comprar um voo para Bombaim. 
Depois de África, viajar nesta zona da Ásia é muito fácil. Mesmo se fosse surdo, fanhoso, perneta, ligeiramente leproso e careca, não consigo imaginar possíveis problemas. Tudo corre como se planeou dois dias ou dois minutos antes. E é barato. Não seria elegante falar de valores, portanto é-me impossível fazê-lo, mas, pelo que se gasta para viver como um mendigo em todo o lado, nas índias vive-se como um marajá. Não confundir com maracujá, esses têm uma triste vida, pendurados até apodrecer ou serem espremidos para sumo.

A Índia, para mim e três papagaios loiros, é como os rissóis de carne. Não são tão apetitosos como os outros tipos de rissóis, e medianos entre a espécie dos aperitivos salgados, porém, de tempos a tempos, surpreendem, e só por isso vale a pena continuar a prová-los. Não é, assim com o Sri Lão, a Tailândia e o Barreiro, o sítio com que mais me identifico, onde me sinto melhor, e continuo a achar que se deve ir directo para Caxemira, para os Himalaias, onde estive em 2007, sem pisar o resto. Ou pisar com jeitinho, para não sujar os pés. Bombaim e umas partes Goa valeram a pena, Bangalore e Chennai que fique para quem goste.

A sujidade e faltas de higiene no país não são mitos, como que beber cerveja por uma palhinha bate mais, ou aquela história de que quando se abana uma garrafa com água, essa água estraga-se. É sujo. Tudo ou quase tudo. E embora a maior parte da porcaria não me aflija, alguma chateia. Há vezes em que basta cheirar o prato de caril, sentir o cheiro das bactérias safadas, e sei que vou ter dois dias de correrias para os lavabos. A menos que se faça uma viagem muito cara, não há como escapar. A única forma é abstrairmo-nos, pensar noutras coisas, como se faz nos bares de strip. Depois de cada actuação, depois de uma artista safada se esfregar violentamente no varão, ninguém o limpa, fica imundo, e a artista seguinte continua com ele nesse estado. Pouco custava ter uma senhora de limpezas que lá passasse um esfregão nos intervalos, ou que o fizesse quem lava os copos, com um esfregão diferente, mas não. No entanto, quando lá estamos, com algum esforço, conseguimos pensar noutras coisas, não nas doenças a que a que as coitadas estão sujeitas, e até se passa um tempo agradável.

Outra poluição são as carradas de turistas chatos arrastados pelo lado espiritual, místico, associado ao país. Eu, sinceramente, não o percebo, e ser ignorante é meio caminho para poder gozar com isso. O certo é que quando me deram um panfleto com: 'Venha meditar pela Paz Mundial. Venha doar os seus pensamentos positivos…', não parei de rir por um mês. Mas sei que estou a ser insensível, e sinto-me mal por isso. E….. já passou. Já não sinto nada.

O Ceilanka é mais diferente da Índia do que estava convencido. É pequeno e arrumadinho, maioritariamente budista, e seguro (desde a morte do líder da guerrilha Tamil). Para despachar (tenho uma aeronave à espera), saí do Sri Lanka e pensei: é tudo muito bonito e agradável, as pessoas são simpáticas, correu muito bem, mas não volto cá tão cedo. Não houve nada de realmente excitante. De tudo o vi, e o país tem muito para mostrar, o que mais recordo foram dois grupos de macacos a nadar debaixo de água e a fazerem traquinices uns aos outros, como eu fazia com outros miúdos nas férias verão. Mas não liguem, toda a gente que conheci adorou aquilo.

A Tailândia é outro país que vive na Ásia. Recebe tantos turistas que está a afundar. Não é mau, e nem é de agora, mas convém saber que é isso que se vai encontrar, não tailandeses. Talvez o turismo mais antigo, e um dos mais conhecidos, é o sexual. Senhores que procuram senhoras para fazer coisas. Uma dessas coisas, que achei interessante, é ir para uma esplanada ter conversas românticas. E é surreal ouvir velhos barrigudos de voz melosa gabarem-se das suas proezas da noite anterior a meninas adolescentes, enquanto elas arranjam as unhas ou brincam com os iphones. Passei dias a cuscar (a cusquice é um poder de extrema utilidade que apenas deve ser usado para o bem, o que é raro, mas neste caso era para o meu bem). Não sei se se lembram de um tempo, anterior à internet, em que pais ensinavam aos filhos a história da cegonha. Aqui, as personagens são, aparentemente, idênticas, só que a historia é contada na primeira pessoa, ensinada ao mais ínfimo pormenor, e a aula prática está marcada para depois do jantar. É de chorar a rir, ou só de chorar, mas vale a pena.

Gostei de Banguecoque (Banguicóqui, em brasileiro), é uma cidade meio doida e meio varrida. Tem vida. E não é só rameiras e vinho verde, não é só happy endings, ping-pong e lady-boys. Como seria de esperar, em 6 milhões de habitantes, nem todos são proxenetas ou meretrizes, há outras pessoas com actividades menos interessantes. Perante a dificuldade de fotografar completamente oleado, a câmara escorrega, aqui ficam fotografias de um bairro onde se vendem estátuas de figuras com os mamilos à mostra. Figuras sagradas, estas. Há quem jure que as outras também são.

Até já. beijos





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26.3.12

Dead Taxi Drivers

Ser motorista de taxis é ter uma profissão de risco. Os números anuais, que tive preguiça de procurar, de assaltos violentos, doenças relacionadas com o stress, acidentes rodoviários e crimes de paixão, porque as mulheres de taxistas não são de confiar, a que estão sujeitos, provam-no, são enormes. E, na India, um país com mais de um bilião de habitantes, são gigantes. Para efeitos explicativos, 'gigantes' é muito maior do que 'enormes'.

Da melhor forma que consegui, fotografei-os, mortos. É um alerta, o meu alerta.

Embora me custe, tenho de admitir que existe uma possibilidade, remota, dos senhores não estarem mortos. Ainda não estarem mortos. É, sempre, uma questão de tempo. Mas acredito que sim. Nestes tristes momentos que passámos juntos não se mexeram um milímetro, nem com o som do clique fotográfico, nem com as cócegas nos pés e atrás da orelha. E alguns cheiravam mal, a podre. Não sou perito em autópsias, mas, para mim, esticaram o pernil. Ninguém dorme assim.


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4.3.12

Moçambique, África do Sul, e fim



Aloe vera!

Estou doente, dói-me a garganta e tenho as duas narinas do mesmo nariz entupidas. Devem desejar-me as melhoras e dizer 'coitadinho do Pedrinho que está tão doentinho', mas não percam mais do que duas noites de sono preocupados, isto passa rápido. Comecei um intensivo programa de auto-medicação que está a correr lindamente. O objectivo inicial, manter-me vivo, está a ser um sucesso - ainda cá estou, a respirar pela boca - e deve-se em grande parte ao facto de estar na India, que alguns conhecem por Diarreialand, onde vendem comprimidos avulso ao preço da chuva, ou ligeiramente mais caros, mas pouco. Esta prática comercial traz tantas vantagens que decidi partilhar apenas uma: experimentar todo o tipo de medicamentos e só comprar a caixa do que funciona. Porque 'não há dois corpos iguais', já dizia o Zezé Camarinha, e o que é bom para um, não é certo que sirva no outro. Aliás, por isso é que há muito mais marcas de comprimidos do que de doenças. Estou quase a concluir a fase de testes. Vou nos supositórios, demoram mais tempo a testar. O tratamento tem algumas advertências, claro. Não convém conduzir veículos, utilizar ferramentas e máquinas, e amamentar, que me deixava os mamilos numa lástima mas ocupava quase metade dos dias. E, por estar com a laringe ou a traqueia, a zona atrás dos dentes, desgraçada, tenho de cortar nas bebidas geladas que rimam com inveja. Portanto, dias inteiros sem nada para fazer, tempo de sobra para actualizar o blogue - esta coisa que estão a ler.
Há uma recomendação nestas caixas que me está a fazer espécie. "Manter fora do alcance e da vista das crianças". "fora da vista", porquê? Todos ouvimos que "os olhos também comem"  mas ninguém leva a sério. Ou leva? Será que me está a escapar alguma coisa? Os miúdos começaram a sair com novos poderes?

Mas, avante camarada, ao que interessa: África. 
Desci aquilo tudo. Do Cairo ao Cabo. À boleia, a pé, de bicicleta, de comboio, camião, de mota, barco, taxe, tuk-tuk e em muitas Hiaces e autocarros. E estou a reparar que, estupidamente, não pedi a ninguém para me levar às cavalitas. Grande falha.

Fiquei um mês em Moçambique. Quando não estava enfiado em autocarros, estava com a família, a engordar. Peso 110 quilos. Segundo especialistas, o peso ideal para um gajo gordo da minha altura. A minha mãe, a Octávia, nasceu na província do Niassa e ainda por lá tenho gente parecida comigo. Como não vou falar deles, pelas mesmas razões que a máfia não fala dela própria, vou cascar no país. Não que os seus problemas sejam muito diferentes dos outros onde passei, corrupção e abusos de poder estão no programa do 1º ano do ensino africano, mas porque me está mais próximo, faz mais comichão, muita comichão. 

É melhor fazerem a pausa para a bucha. Vou escrever até doerem os dedos, quero deixar tudo gravado. A droga dá-me cabo da memória.

Moçambique está caro, mais do que os países vizinhos e mais do que Portugal. Estar caro, só por si, não é um problema. Os preços na Suíça são altos e os suíços vivem bem. O problema é que mais de 90% dos moçambicanos vive mal.
Como trabalhei num jornal económico, no melhor de todó mundo, tenho de mostrar números, é mais forte do que eu. 

Há 13 ordenados mínimos em Moçambique, variam conforme os diferentes sectores económicos. Não sei quem teve esta brilhante ideia, mas, para exemplo, no sector agrícola e pecuária é de 2005 meticais, enquanto no sector financeiro é 5320. A média aritmética dos 13 dá 2893Mtc. 2900Mtc, arredondando.
A Suiça não tem ordenado mínimo. O empregador decide. Há pouco tempo li que o estado suíço quer impor um valor, 3300Eur, se não me engano. Como ainda não foi implementado, fui a uma das bíblias, à wikipédia, onde encontrei o valor médio (estimado) que é pago ao trabalhador mais rasca. 2900Eur (3500CHF). Isto era tudo muito bonito se só interessassem os números, os 2900, e aquelas letras agarradas fossem para enfeitar, tipo brincos. Mas não, interessam. Umas letras são brincos d'oiro e as outras argolas de pechisbeque. 2900Mtc são 80Eur. E esta diferença é (ia dizer imoral, mas é um termo que não se usa na economia) feia.
Os que ainda não adormeceram (acontecia quando lia o meu jornal), estarão a pensar que é completamente descabido usar estes dois países como comparação, os preços em Moçambique nunca serão como os da terra do chicolate. Admito que estou a esticar um bocadinho, mas não tanto como isso. Ouvi senhores que trabalham nesta zona, daqueles que têm mais do que um cartão bancário, queixarem-se que 'está mau, está a ficar como Angola'. Luanda faz parte, ano após ano, da lista das cidades mais caras do mundo, ao lado de Genebra e Zurique. 
Como é óbvio, há um mercado paralelo de bens essenciais a preços que permite às pessoas sobreviverem. Só que sobreviver é muito muito diferente de viver. Quando se precisa de um médico, não de um talhante que faz uma perninha no hospital local (se existir), esse médico paga-se em preço suíço, e não o conseguir pagar pode significar não sobreviver. Aqui, infelizmente, não me estou a esticar.
Nem todos os países têm de ser suíças, felizmente. Moçambique não será, o clima é muito diferente e as pessoas ainda mais. Será sempre mais pobre, muito mais pobre, mas assim, é ridículo.

Se os preços são altos, é porque alguém os pode pagar. Os tais 10%, para não dizer menos. 
Ao que parece, e vou falar do que ouvi nos cafés, há muito dinheiro fácil a circular naquela terra. Talvez não seja verdade, mas ouve-se que é dinheiro com origem num governo e organismos de estado extremamente corruptos, do tráfico de droga e outras maldades do género. Além disso, vê-se muita gente de fora com uns trocos para gastar. A malta porreira das ONGs vive nos bares dos hotéis e tem jipes maiores do que maioria das casas moçambicanas; e os trabalhadores estrangeiros (há  imensos portugueses), de multinacionais, residentes ou de passagem, com salários que nunca conseguiriam nos seus países de origem.
O resto da economia segue atrás, com estes como referência.

Há um lado irónico nesta treta toda. Passear nas cidades, não só em Maputo, é como fazer uma visita turística a prisões famosas. Todas as casas, pelo menos até ao segundo andar, têm grades, arame farpado, cercas eléctricas, alarmes e guardas à porta. Há ruas estreitas que parecem os corredores de Alcatraz e garagens iguais às cadeias dos filmes do John Wayne. Quando mais dinheiro tiver o dono da casa, mais armados estão os guardas, maiores são os muros, mais preso ele vive. Enquanto isso, os do ordenado mínimo e os criminosos andam livres, a aproveitar o belo clima daquela terra. Mas é tudo uma questão de hábito. Assim como os esquimós se habituaram a viver no gelo, também ali se habituaram a viver encarcerados, e, provavelmente, até gostam. É acolhedor, como um iglu. 

Recentemente foram encontradas gigantes reservas de gás natural no norte do país. Entrarão, portanto, rios dinheiro para os cofres do estado (ou bolsos do estado). Quanto desse dinheiro o governo vai investir em educação e saúde? Passei em zonas onde a população só não vive como há 500 anos porque, de vez em quando, vê passar aviões. E até posso esquecer a educação, compreendo que educar o povo poderá, para estes senhores, ser como dar um tiro no pé, mas não vejo o porquê de não investir na saúde. Aposto que vamos primeiro ouvir que moçambicanos compraram participações em bancos e empresas portuguesas, como fazem os nossos patrões angolanos, do que num plano de nacional de saúde, com campanhas sérias contra a sida e a malária, construção de hospitais, tralalá, tralalá. 
Espero que, com tanto dinheiro novo, não piore. Há exemplos péssimos em África. A Nigéria é um dos maiores (se não o maior?) produtores de petróleo do continente e vê-se o lindo estado em que anda.

Não quero convencer ninguém a deixar de lá dar um salto. É um daqueles países que enchem os olhos e de onde levamos histórias. Mas levem dólares, muitos, e não é para ajudar os pobrezinhos. Para isso, o melhor é comprar produtos Microsoft e deixar o Bill Gates usar o dinheiro.

E depois disto, não me apetece falar muito sobre a África do Sul. 
Foi o primeiro sítio, desde o Cairo, onde me fizeram sentir branco, clarinho, e onde quase apanhei por isso. Tem um equilíbrio perigoso, em que de um lado estão poucos brancos e muito dinheiro, e do outro, muitos pretos com pouco. O estranho é que, mesmo depois do apartheid, ele se tem aguentado. Quando mudar, se, por exemplo, for eleito um líder mais radical (há uns na calha), convém estar longe, vai dar batatada forte. Enquanto não dá, conhecendo as regras, sabendo que relva não se pode pisar, merece bem uma visita.

Segunda pausa para a bucha. Falta menos do que faltava há bocado.



A Mega-Viagem.

Por não confiar em quem está sempre a dar conselhos, e não querer cometer o mesmo erro, não o costumo fazer. Mas este é dos bons, juro pela santíssima. 

Peguem em cinco cuecas, em algum (não muito) dinheiro e num boné. Espetem todas as vacinas que o médico vos recomendar, e apanhem um comboio no Cairo em direcção a Luxor. Depois, enquanto conseguirem, continuem nessa direcção. Vale a pena. Tenho a certeza absoluta (tenho poucas destas) que, para sempre, vou ter saudades destes quatros meses. 
Sei que não estou a escrever para todos, poucos têm a sorte de poder pensar nisso, mas alguns têm. E pensem para daqui a dez ou quinze anos. Desde que as pernas aguentem, é daquelas experiências que só devem melhorar com a idade. Quem me dera ter mais vinte anos e saber mais do que sei hoje. 
Não são anos para ganhar coragem, quem não tem medo é parvo, todos temos, mas não se pode ser medricas, até porque o mundo está cada vez mais cheio deles e tem piada ser do contra. Costumo ouvir o Sr Cohen cantar à Marianne, "you left when I told I was curious / I never said that I was braveeee", e, para descer África, basta ser como ele, curioso. Guarde-se a bravura para conquistar montanhas, oceanos e algumas mulheres, para estar num emprego onde se é explorado ou para quando se tiver de pedinchar por um. Para viajar, para partilhar autocarros e alojamentos, para saber o que há depois da curva, a curiosidade chega. Além disso, a curiosidade só mata gatos, nós estamos seguros.
Agora, vão comprar as cuecas. Só se vive uma vez, mas é mais do que suficiente. (gosto de acabar os conselhos com estas frases inspiradoras. dá-lhes classe).

Não fui feito para viver em África, seria demasiado difícil, há demasiados aspectos culturais que não entendo ou não aceito, há outros valores, sempre fui mais sueco do que africano (o que não é bom nem mau). Mas, talvez por isso, estas viagens foram melhores que todas as outras. 
Andar ali tem uma vantagem em relação aos outros sítios: nunca é aborrecido. Nunca. Depois de entrar num autocarro é impossível prever onde e como se estará uma hora depois. Não vale a pena ter horários e marcar hotéis, tudo muda, sempre. Não vale a pena suar com medo dos acidentes, dizer mal dos motoristas, os irresponsáveis sem alma. A única vez que bati, estava eu a conduzir. 

Quando cheguei à África do Sul, ainda não completamente convencido disto, decidi viajar de comboio, um transporte de confiança. O que poderá correr mal num comboio que atravessa o meio de nada? Nada. Comecei por ter dois manfios interessados nas minhas coisas. Depois, já noite e com os manfios afastados, o comboio avariou. Voltamos a andar, muitas horas depois, já dia quente. Logo a seguir, entrou uma bala, suponho que perdida, duas janelas à frente da minha. Avariou outra vez. Trouxeram uma máquina locomotiva nova (da China, porque demorou a chegar) para nos puxar. Quando já não acreditava em mais azar, atropelámos um burro. O burro era duro, e veio outra máquina. A partir daí, começo todos os engates com 'Princesa, sabias que demora 52 minutos a raspar um burro da frente de um comboio?'. Depois do burro, chegámos ao destino, a Port Elizabeth. Durante toda a viagem, enquanto eu chorava de desespero, os mais de 100 passageiros da minha carruagem cantaram. E os Zulus cantam, não são como os nossos coros de igreja. Nascem ensinados, só pode. Imaginem estar num concerto dos Ladysmith Black Mambazo, no palco, no meio deles, enquanto voam balas e se esborracham burros. É arrepiante.   

Uma ou duas semanas antes, em Moçambique, viajava de Nampula para Maputo. Já tinha passado a noite anterior em branco, perto do Zambeze, quando o condutor avisa que, devido às cheias, teríamos de dormir novamente no autocarro. A pensar em mais uma noite acordado, com o calor abafado, o cheiro de muitas pessoas suadas, as matilhas de mosquitos e um banco da época da inquisição, decidi ir até ao café e embebedar-me até cair. Não tinha dinheiro. Antes de partir é normal esquecer-me de levar dinheiro, comida, água,… mas peço ajuda e ajudam-me. Mais uma vez, os meus companheiros de viagem ajudaram, pagaram o jantar e uns litros da bebida que rima com carqueja (a 2M é a melhor). Depois de muita conversa, começaram, um por um, a cair. Consegui arrastar-me para o machimbombo, onde, como tinha planeado, também cai. 
Acordei com o sol a nascer, a cabeça a estoirar, e completamente desorientado, sem saber onde estava. Já me tinha acontecido, e, normalmente, sinto algum pânico até perceber onde estou. Mas desta vez, quando acordei, enrolado no banco, morto, havia tanta alegria naquele autocarro, tanto barulho, crianças a brincar, senhoras a cantar, outros a comer, a lavar os dentes, que não houve pânico nenhum. Era um sítio estranho, mas bom. Depois de dois dias sem dormir, sentados, a comer mal e sem saber por quanto tempo mais aquilo duraria, é difícil compreender tanta vida, tanta força. 

Estas histórias repetiram-se desde o Cairo. As pessoas que encontrei são fortes, bem mais do que nós, os meninos mimados cá de cima. Se se entra em África convencido que é um continente condenado pelos conflitos, doenças, cheias e secas, lideres de esterco, oportunistas estrangeiros, que é um lugar sem esperança, sai-se certo que se alguém o pode mudar, e com um sorriso nos lábios, são eles, os que lá vivem. E há um futuro, estupidamente difícil, mas há. São tantas as crianças, foram tantos os autocarros em que tive de levar um bebé ao colo, porque a mãe não tinha braços para todos, que é impossível pensar o contrário. O excesso de população está na origem muitos problemas, mas custa menos ver crianças a mais do que não ver nenhumas, como acontece nas nossas bandas.

Desculpem os desabafos. Fico lamechas quando estou doente.
beijos



4.1.12

quénia e tanzânia


Hoje, cheguei ao Malawi. É um hoje diferente da data que aparece cá em cima, é um hoje em tempo africano, comandado por factores humanos, não astrológicos. Neste caso, é comandado pela disponibilidade de acesso à internet, um factor tão válido como a rotação da terra em relação à estrela. O país, este Malawi, é um buraco (adoro dar uma opinião final sobre um país poucas horas depois de lá chegar). Estou em Mzuzu, uma cidade no norte, que é, provavelmente, o centro da cratera. Hospedei-me num hotel onde se tocar em alguma coisa posso engravidar, e espero a hora para apanhar um autocarro, para sair daqui. 

Era, também, o dia do comprimido contra a malária, o mephaquin, que passou para amanhã, terça, por motivos de ordem alcoólica. Já foi ao domingo. Estou muito triste, e beber o álcool ajuda. Antes de me julgarem como bebedolas, lembro que passei o Natal e o fim de ano longe, sozinho, abandonado, e muito triste, como acabei de escrever. Pior do que tudo, não recebi uma única prenda. Zero. Nasci no dia de Reis, portanto as prendas, as que recebo, não as que ofereço, sempre foram o mais importante desta época. Este ano, nem uma. Obrigado. Felizmente, por estas bandas pouco festejam o nascimento do Mnn Jesus e tudo passou bastante rápido. Vi uma árvore de Natal na Etiópia, quatro na Tanzânia e apenas um elefante com gambiarras no Quénia. O Sr Deus deixa-os morrer à fome, e eles, tumba, ignoram o aniversário do Catraio. Cá se fazem, cá se pagam.

Tenho de ir urinar. Está uma neblina mortal no toilet, espero não desmaiar. 
Voltei. 27 segundos de apneia. 

Antes de hoje (que não é a data que está por cima do título, como tinha explicado), passei pelo Quénia e Tanzânia, talvez os países mais representativos de África (repararam? "países representativos de África", parece uma revista de viagens). Estou a fingir que o norte - os Egíptos e os Marrocos - é outro continente, porque parece, e a esquecer outros, como a África do Sul, onde ainda não cheguei e, por isso, não existem. A verdade é que quase todas as imagens, quase todos dos postais de África, são daqui. As fotografias dos bichos em Ngorongoro, do Kilimanjaro, do pôr-do-sol no Serengeti, as mamocas ao léu no Masai Mara, as praias de Zanzibar, reticências, é tudo aqui. E, é uma bosta. 

Terminei o parágrafo com um palavrão na esperança que a próxima explicação seja breve. Ao usar o asneiredo, o choque provocado serve para cortar três ou quatro linhas da explicação seguinte. É um facto. E é nisso que estou a apostar. Feijões e linhas de texto. Não me apetece escrever muito mais. Hoje, para encher, mostro umas fotografias. Fotografar tem mais piada do que escrever, descobri há algum tempo.

Quando disse que eram países de bosta, de caca, estava a exagerar (é raro fazê-lo. perdão). Disse-o por inveja, porque, ao contrário do meu, são países imensos, infindáveis, mas também por ser um mau sítio para viajar. A maioria dos visitantes vêm para ser arrastados, servidos, não vêm em viagem. Vêm para safaris e tours, levados por guias que sabem tudo sobre tudo, carregados como malas, dormem em resorts de onde não saem e gastam muito dinheiro. Não tenho nada contra, por vezes, sabe bem; o problema é estar tudo feito só para eles, o que tornou mais difícil e menos interessante a minha passagem. É difícil andar seguro e livre, há sempre por perto um chico-esperto a vender artesanato ou pacotes de férias que incluem alojamento, transporte, alimentação, servos, companheiros de viagens, tudo. E é muito fácil, é só pagar. Prefiro os pacotes grátis. As cidades não merecem grandes estadias. São pobres,  com 1% de habitantes muito ricos, e violentas. Nairobi é a pior.

O que é fácil perceber aqui é que os postais que conhecemos estão desactualizados. Faz-se o trajecto de norte a sul, do Cairo até cá abaixo, como estou a fazer, milhares de quilómetros a olhar pelo vidro de uma biátura, e não se vê um animal de postal. O continente mudou, é uma terra de pessoas, não de bicharada. Para as crianças aprenderem o que é uma girafa não espreitam pela janela da sala de aulas (quando há sala de aulas), vão aos zoos e aos museus. Fiz o mesmo. E decidi fotografa-los da forma como os veremos daqui a uns anos, animais extintos ou moribundos. São as futuras imagens de África, os novos postais. É curioso que as esteja a fazer em museus.

Deixo umas fotografias dos zoos, que não estou a pensar usar para mais nada, mas gosto do contraste com as outras. Depois enfio mais empalhados no facebook. 

Na sexta-feira faço anos. Muitos, felizmente.
Beijos e bom 2012!




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