4.1.12

quénia e tanzânia


Hoje, cheguei ao Malawi. É um hoje diferente da data que aparece cá em cima, é um hoje em tempo africano, comandado por factores humanos, não astrológicos. Neste caso, é comandado pela disponibilidade de acesso à internet, um factor tão válido como a rotação da terra em relação à estrela. O país, este Malawi, é um buraco (adoro dar uma opinião final sobre um país poucas horas depois de lá chegar). Estou em Mzuzu, uma cidade no norte, que é, provavelmente, o centro da cratera. Hospedei-me num hotel onde se tocar em alguma coisa posso engravidar, e espero a hora para apanhar um autocarro, para sair daqui. 

Era, também, o dia do comprimido contra a malária, o mephaquin, que passou para amanhã, terça, por motivos de ordem alcoólica. Já foi ao domingo. Estou muito triste, e beber o álcool ajuda. Antes de me julgarem como bebedolas, lembro que passei o Natal e o fim de ano longe, sozinho, abandonado, e muito triste, como acabei de escrever. Pior do que tudo, não recebi uma única prenda. Zero. Nasci no dia de Reis, portanto as prendas, as que recebo, não as que ofereço, sempre foram o mais importante desta época. Este ano, nem uma. Obrigado. Felizmente, por estas bandas pouco festejam o nascimento do Mnn Jesus e tudo passou bastante rápido. Vi uma árvore de Natal na Etiópia, quatro na Tanzânia e apenas um elefante com gambiarras no Quénia. O Sr Deus deixa-os morrer à fome, e eles, tumba, ignoram o aniversário do Catraio. Cá se fazem, cá se pagam.

Tenho de ir urinar. Está uma neblina mortal no toilet, espero não desmaiar. 
Voltei. 27 segundos de apneia. 

Antes de hoje (que não é a data que está por cima do título, como tinha explicado), passei pelo Quénia e Tanzânia, talvez os países mais representativos de África (repararam? "países representativos de África", parece uma revista de viagens). Estou a fingir que o norte - os Egíptos e os Marrocos - é outro continente, porque parece, e a esquecer outros, como a África do Sul, onde ainda não cheguei e, por isso, não existem. A verdade é que quase todas as imagens, quase todos dos postais de África, são daqui. As fotografias dos bichos em Ngorongoro, do Kilimanjaro, do pôr-do-sol no Serengeti, as mamocas ao léu no Masai Mara, as praias de Zanzibar, reticências, é tudo aqui. E, é uma bosta. 

Terminei o parágrafo com um palavrão na esperança que a próxima explicação seja breve. Ao usar o asneiredo, o choque provocado serve para cortar três ou quatro linhas da explicação seguinte. É um facto. E é nisso que estou a apostar. Feijões e linhas de texto. Não me apetece escrever muito mais. Hoje, para encher, mostro umas fotografias. Fotografar tem mais piada do que escrever, descobri há algum tempo.

Quando disse que eram países de bosta, de caca, estava a exagerar (é raro fazê-lo. perdão). Disse-o por inveja, porque, ao contrário do meu, são países imensos, infindáveis, mas também por ser um mau sítio para viajar. A maioria dos visitantes vêm para ser arrastados, servidos, não vêm em viagem. Vêm para safaris e tours, levados por guias que sabem tudo sobre tudo, carregados como malas, dormem em resorts de onde não saem e gastam muito dinheiro. Não tenho nada contra, por vezes, sabe bem; o problema é estar tudo feito só para eles, o que tornou mais difícil e menos interessante a minha passagem. É difícil andar seguro e livre, há sempre por perto um chico-esperto a vender artesanato ou pacotes de férias que incluem alojamento, transporte, alimentação, servos, companheiros de viagens, tudo. E é muito fácil, é só pagar. Prefiro os pacotes grátis. As cidades não merecem grandes estadias. São pobres,  com 1% de habitantes muito ricos, e violentas. Nairobi é a pior.

O que é fácil perceber aqui é que os postais que conhecemos estão desactualizados. Faz-se o trajecto de norte a sul, do Cairo até cá abaixo, como estou a fazer, milhares de quilómetros a olhar pelo vidro de uma biátura, e não se vê um animal de postal. O continente mudou, é uma terra de pessoas, não de bicharada. Para as crianças aprenderem o que é uma girafa não espreitam pela janela da sala de aulas (quando há sala de aulas), vão aos zoos e aos museus. Fiz o mesmo. E decidi fotografa-los da forma como os veremos daqui a uns anos, animais extintos ou moribundos. São as futuras imagens de África, os novos postais. É curioso que as esteja a fazer em museus.

Deixo umas fotografias dos zoos, que não estou a pensar usar para mais nada, mas gosto do contraste com as outras. Depois enfio mais empalhados no facebook. 

Na sexta-feira faço anos. Muitos, felizmente.
Beijos e bom 2012!




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