4.3.12

Moçambique, África do Sul, e fim



Aloe vera!

Estou doente, dói-me a garganta e tenho as duas narinas do mesmo nariz entupidas. Devem desejar-me as melhoras e dizer 'coitadinho do Pedrinho que está tão doentinho', mas não percam mais do que duas noites de sono preocupados, isto passa rápido. Comecei um intensivo programa de auto-medicação que está a correr lindamente. O objectivo inicial, manter-me vivo, está a ser um sucesso - ainda cá estou, a respirar pela boca - e deve-se em grande parte ao facto de estar na India, que alguns conhecem por Diarreialand, onde vendem comprimidos avulso ao preço da chuva, ou ligeiramente mais caros, mas pouco. Esta prática comercial traz tantas vantagens que decidi partilhar apenas uma: experimentar todo o tipo de medicamentos e só comprar a caixa do que funciona. Porque 'não há dois corpos iguais', já dizia o Zezé Camarinha, e o que é bom para um, não é certo que sirva no outro. Aliás, por isso é que há muito mais marcas de comprimidos do que de doenças. Estou quase a concluir a fase de testes. Vou nos supositórios, demoram mais tempo a testar. O tratamento tem algumas advertências, claro. Não convém conduzir veículos, utilizar ferramentas e máquinas, e amamentar, que me deixava os mamilos numa lástima mas ocupava quase metade dos dias. E, por estar com a laringe ou a traqueia, a zona atrás dos dentes, desgraçada, tenho de cortar nas bebidas geladas que rimam com inveja. Portanto, dias inteiros sem nada para fazer, tempo de sobra para actualizar o blogue - esta coisa que estão a ler.
Há uma recomendação nestas caixas que me está a fazer espécie. "Manter fora do alcance e da vista das crianças". "fora da vista", porquê? Todos ouvimos que "os olhos também comem"  mas ninguém leva a sério. Ou leva? Será que me está a escapar alguma coisa? Os miúdos começaram a sair com novos poderes?

Mas, avante camarada, ao que interessa: África. 
Desci aquilo tudo. Do Cairo ao Cabo. À boleia, a pé, de bicicleta, de comboio, camião, de mota, barco, taxe, tuk-tuk e em muitas Hiaces e autocarros. E estou a reparar que, estupidamente, não pedi a ninguém para me levar às cavalitas. Grande falha.

Fiquei um mês em Moçambique. Quando não estava enfiado em autocarros, estava com a família, a engordar. Peso 110 quilos. Segundo especialistas, o peso ideal para um gajo gordo da minha altura. A minha mãe, a Octávia, nasceu na província do Niassa e ainda por lá tenho gente parecida comigo. Como não vou falar deles, pelas mesmas razões que a máfia não fala dela própria, vou cascar no país. Não que os seus problemas sejam muito diferentes dos outros onde passei, corrupção e abusos de poder estão no programa do 1º ano do ensino africano, mas porque me está mais próximo, faz mais comichão, muita comichão. 

É melhor fazerem a pausa para a bucha. Vou escrever até doerem os dedos, quero deixar tudo gravado. A droga dá-me cabo da memória.

Moçambique está caro, mais do que os países vizinhos e mais do que Portugal. Estar caro, só por si, não é um problema. Os preços na Suíça são altos e os suíços vivem bem. O problema é que mais de 90% dos moçambicanos vive mal.
Como trabalhei num jornal económico, no melhor de todó mundo, tenho de mostrar números, é mais forte do que eu. 

Há 13 ordenados mínimos em Moçambique, variam conforme os diferentes sectores económicos. Não sei quem teve esta brilhante ideia, mas, para exemplo, no sector agrícola e pecuária é de 2005 meticais, enquanto no sector financeiro é 5320. A média aritmética dos 13 dá 2893Mtc. 2900Mtc, arredondando.
A Suiça não tem ordenado mínimo. O empregador decide. Há pouco tempo li que o estado suíço quer impor um valor, 3300Eur, se não me engano. Como ainda não foi implementado, fui a uma das bíblias, à wikipédia, onde encontrei o valor médio (estimado) que é pago ao trabalhador mais rasca. 2900Eur (3500CHF). Isto era tudo muito bonito se só interessassem os números, os 2900, e aquelas letras agarradas fossem para enfeitar, tipo brincos. Mas não, interessam. Umas letras são brincos d'oiro e as outras argolas de pechisbeque. 2900Mtc são 80Eur. E esta diferença é (ia dizer imoral, mas é um termo que não se usa na economia) feia.
Os que ainda não adormeceram (acontecia quando lia o meu jornal), estarão a pensar que é completamente descabido usar estes dois países como comparação, os preços em Moçambique nunca serão como os da terra do chicolate. Admito que estou a esticar um bocadinho, mas não tanto como isso. Ouvi senhores que trabalham nesta zona, daqueles que têm mais do que um cartão bancário, queixarem-se que 'está mau, está a ficar como Angola'. Luanda faz parte, ano após ano, da lista das cidades mais caras do mundo, ao lado de Genebra e Zurique. 
Como é óbvio, há um mercado paralelo de bens essenciais a preços que permite às pessoas sobreviverem. Só que sobreviver é muito muito diferente de viver. Quando se precisa de um médico, não de um talhante que faz uma perninha no hospital local (se existir), esse médico paga-se em preço suíço, e não o conseguir pagar pode significar não sobreviver. Aqui, infelizmente, não me estou a esticar.
Nem todos os países têm de ser suíças, felizmente. Moçambique não será, o clima é muito diferente e as pessoas ainda mais. Será sempre mais pobre, muito mais pobre, mas assim, é ridículo.

Se os preços são altos, é porque alguém os pode pagar. Os tais 10%, para não dizer menos. 
Ao que parece, e vou falar do que ouvi nos cafés, há muito dinheiro fácil a circular naquela terra. Talvez não seja verdade, mas ouve-se que é dinheiro com origem num governo e organismos de estado extremamente corruptos, do tráfico de droga e outras maldades do género. Além disso, vê-se muita gente de fora com uns trocos para gastar. A malta porreira das ONGs vive nos bares dos hotéis e tem jipes maiores do que maioria das casas moçambicanas; e os trabalhadores estrangeiros (há  imensos portugueses), de multinacionais, residentes ou de passagem, com salários que nunca conseguiriam nos seus países de origem.
O resto da economia segue atrás, com estes como referência.

Há um lado irónico nesta treta toda. Passear nas cidades, não só em Maputo, é como fazer uma visita turística a prisões famosas. Todas as casas, pelo menos até ao segundo andar, têm grades, arame farpado, cercas eléctricas, alarmes e guardas à porta. Há ruas estreitas que parecem os corredores de Alcatraz e garagens iguais às cadeias dos filmes do John Wayne. Quando mais dinheiro tiver o dono da casa, mais armados estão os guardas, maiores são os muros, mais preso ele vive. Enquanto isso, os do ordenado mínimo e os criminosos andam livres, a aproveitar o belo clima daquela terra. Mas é tudo uma questão de hábito. Assim como os esquimós se habituaram a viver no gelo, também ali se habituaram a viver encarcerados, e, provavelmente, até gostam. É acolhedor, como um iglu. 

Recentemente foram encontradas gigantes reservas de gás natural no norte do país. Entrarão, portanto, rios dinheiro para os cofres do estado (ou bolsos do estado). Quanto desse dinheiro o governo vai investir em educação e saúde? Passei em zonas onde a população só não vive como há 500 anos porque, de vez em quando, vê passar aviões. E até posso esquecer a educação, compreendo que educar o povo poderá, para estes senhores, ser como dar um tiro no pé, mas não vejo o porquê de não investir na saúde. Aposto que vamos primeiro ouvir que moçambicanos compraram participações em bancos e empresas portuguesas, como fazem os nossos patrões angolanos, do que num plano de nacional de saúde, com campanhas sérias contra a sida e a malária, construção de hospitais, tralalá, tralalá. 
Espero que, com tanto dinheiro novo, não piore. Há exemplos péssimos em África. A Nigéria é um dos maiores (se não o maior?) produtores de petróleo do continente e vê-se o lindo estado em que anda.

Não quero convencer ninguém a deixar de lá dar um salto. É um daqueles países que enchem os olhos e de onde levamos histórias. Mas levem dólares, muitos, e não é para ajudar os pobrezinhos. Para isso, o melhor é comprar produtos Microsoft e deixar o Bill Gates usar o dinheiro.

E depois disto, não me apetece falar muito sobre a África do Sul. 
Foi o primeiro sítio, desde o Cairo, onde me fizeram sentir branco, clarinho, e onde quase apanhei por isso. Tem um equilíbrio perigoso, em que de um lado estão poucos brancos e muito dinheiro, e do outro, muitos pretos com pouco. O estranho é que, mesmo depois do apartheid, ele se tem aguentado. Quando mudar, se, por exemplo, for eleito um líder mais radical (há uns na calha), convém estar longe, vai dar batatada forte. Enquanto não dá, conhecendo as regras, sabendo que relva não se pode pisar, merece bem uma visita.

Segunda pausa para a bucha. Falta menos do que faltava há bocado.



A Mega-Viagem.

Por não confiar em quem está sempre a dar conselhos, e não querer cometer o mesmo erro, não o costumo fazer. Mas este é dos bons, juro pela santíssima. 

Peguem em cinco cuecas, em algum (não muito) dinheiro e num boné. Espetem todas as vacinas que o médico vos recomendar, e apanhem um comboio no Cairo em direcção a Luxor. Depois, enquanto conseguirem, continuem nessa direcção. Vale a pena. Tenho a certeza absoluta (tenho poucas destas) que, para sempre, vou ter saudades destes quatros meses. 
Sei que não estou a escrever para todos, poucos têm a sorte de poder pensar nisso, mas alguns têm. E pensem para daqui a dez ou quinze anos. Desde que as pernas aguentem, é daquelas experiências que só devem melhorar com a idade. Quem me dera ter mais vinte anos e saber mais do que sei hoje. 
Não são anos para ganhar coragem, quem não tem medo é parvo, todos temos, mas não se pode ser medricas, até porque o mundo está cada vez mais cheio deles e tem piada ser do contra. Costumo ouvir o Sr Cohen cantar à Marianne, "you left when I told I was curious / I never said that I was braveeee", e, para descer África, basta ser como ele, curioso. Guarde-se a bravura para conquistar montanhas, oceanos e algumas mulheres, para estar num emprego onde se é explorado ou para quando se tiver de pedinchar por um. Para viajar, para partilhar autocarros e alojamentos, para saber o que há depois da curva, a curiosidade chega. Além disso, a curiosidade só mata gatos, nós estamos seguros.
Agora, vão comprar as cuecas. Só se vive uma vez, mas é mais do que suficiente. (gosto de acabar os conselhos com estas frases inspiradoras. dá-lhes classe).

Não fui feito para viver em África, seria demasiado difícil, há demasiados aspectos culturais que não entendo ou não aceito, há outros valores, sempre fui mais sueco do que africano (o que não é bom nem mau). Mas, talvez por isso, estas viagens foram melhores que todas as outras. 
Andar ali tem uma vantagem em relação aos outros sítios: nunca é aborrecido. Nunca. Depois de entrar num autocarro é impossível prever onde e como se estará uma hora depois. Não vale a pena ter horários e marcar hotéis, tudo muda, sempre. Não vale a pena suar com medo dos acidentes, dizer mal dos motoristas, os irresponsáveis sem alma. A única vez que bati, estava eu a conduzir. 

Quando cheguei à África do Sul, ainda não completamente convencido disto, decidi viajar de comboio, um transporte de confiança. O que poderá correr mal num comboio que atravessa o meio de nada? Nada. Comecei por ter dois manfios interessados nas minhas coisas. Depois, já noite e com os manfios afastados, o comboio avariou. Voltamos a andar, muitas horas depois, já dia quente. Logo a seguir, entrou uma bala, suponho que perdida, duas janelas à frente da minha. Avariou outra vez. Trouxeram uma máquina locomotiva nova (da China, porque demorou a chegar) para nos puxar. Quando já não acreditava em mais azar, atropelámos um burro. O burro era duro, e veio outra máquina. A partir daí, começo todos os engates com 'Princesa, sabias que demora 52 minutos a raspar um burro da frente de um comboio?'. Depois do burro, chegámos ao destino, a Port Elizabeth. Durante toda a viagem, enquanto eu chorava de desespero, os mais de 100 passageiros da minha carruagem cantaram. E os Zulus cantam, não são como os nossos coros de igreja. Nascem ensinados, só pode. Imaginem estar num concerto dos Ladysmith Black Mambazo, no palco, no meio deles, enquanto voam balas e se esborracham burros. É arrepiante.   

Uma ou duas semanas antes, em Moçambique, viajava de Nampula para Maputo. Já tinha passado a noite anterior em branco, perto do Zambeze, quando o condutor avisa que, devido às cheias, teríamos de dormir novamente no autocarro. A pensar em mais uma noite acordado, com o calor abafado, o cheiro de muitas pessoas suadas, as matilhas de mosquitos e um banco da época da inquisição, decidi ir até ao café e embebedar-me até cair. Não tinha dinheiro. Antes de partir é normal esquecer-me de levar dinheiro, comida, água,… mas peço ajuda e ajudam-me. Mais uma vez, os meus companheiros de viagem ajudaram, pagaram o jantar e uns litros da bebida que rima com carqueja (a 2M é a melhor). Depois de muita conversa, começaram, um por um, a cair. Consegui arrastar-me para o machimbombo, onde, como tinha planeado, também cai. 
Acordei com o sol a nascer, a cabeça a estoirar, e completamente desorientado, sem saber onde estava. Já me tinha acontecido, e, normalmente, sinto algum pânico até perceber onde estou. Mas desta vez, quando acordei, enrolado no banco, morto, havia tanta alegria naquele autocarro, tanto barulho, crianças a brincar, senhoras a cantar, outros a comer, a lavar os dentes, que não houve pânico nenhum. Era um sítio estranho, mas bom. Depois de dois dias sem dormir, sentados, a comer mal e sem saber por quanto tempo mais aquilo duraria, é difícil compreender tanta vida, tanta força. 

Estas histórias repetiram-se desde o Cairo. As pessoas que encontrei são fortes, bem mais do que nós, os meninos mimados cá de cima. Se se entra em África convencido que é um continente condenado pelos conflitos, doenças, cheias e secas, lideres de esterco, oportunistas estrangeiros, que é um lugar sem esperança, sai-se certo que se alguém o pode mudar, e com um sorriso nos lábios, são eles, os que lá vivem. E há um futuro, estupidamente difícil, mas há. São tantas as crianças, foram tantos os autocarros em que tive de levar um bebé ao colo, porque a mãe não tinha braços para todos, que é impossível pensar o contrário. O excesso de população está na origem muitos problemas, mas custa menos ver crianças a mais do que não ver nenhumas, como acontece nas nossas bandas.

Desculpem os desabafos. Fico lamechas quando estou doente.
beijos



9 comentários:

Anónimo disse...

Ola rapaz! Bem eu tambem ando como tu a respirar pela boca, quanto ao tratamento, mais do mesmo, nada que um comprimidosito não resolva, por estes lados costumo apanhar destas coisas.
Vejo que sais daqui uma pessoa diferente, e que a perspectiva do mundo e das pessoas assim como das culturas muda, foi uma grande aventura e estas de parabéns.
Espero pelo livro, nem que seja um daqueles pequeninos da formiguinha.
Espero também por ti um dia destes, para ter ajudar na engorda, na minha casa.
Um abraço.
Marcel

Anónimo disse...

:)
Cuída-te
JE

Anónimo disse...

:)::)
Abraço
Tv

Homero Caramelo Vulgarmente conhecido por fotobirder ou Licinio ou Licinho ou Sininho disse...

Isso de estar com as narinas entupidas calha a todos, ainda na semana passada andava drogado com paracetamol, convêm guardares essa cena que te deu essa diarreia literária pode ser que venha a ser necessária para escrever uma carta ao pai natal.

Todó o pessoal aqui da Europa que conheces aguardava noticias mas não exageremos.

Cinco cuecas chega? Não é melhor levar uma barra de sabão azul e branco (analogia ao fcp), não seria melhor voar até ao Sudão ou Etiópia e descer o Nilo de jangada, kayak ou canoa, ou crocodilo? Tenho muitas outras viagens planeadas antecedentes a essa, portanto não vou pensar nisso.

Dou-te os meus sinceros parabéns invejosos de ainda teres alguma parte do fígado a funcionar.

Continua por ESTE o passeio, as orientais dão-me cabo da cabeça (da de baixo)...

Anónimo disse...

Belo post primaco! Magnifico. Beijos mil!

Antonio Luis Campos disse...

Estavas inspirado, inspiras quem te lê (mesmo obstipado... ai, não era ai que estavas obstruído, fiz confusão... :-) ). Põe-te bom, e continua.

Já agora, que usos vais dar ao material que fizeste durante este tempo...? Algo planeado?

Abraço, bom regresso,

António Luís

Anónimo disse...

Boa rapaz! Cuidado com as doénçâs venenas ou venéreas...!

Gostei do teu Poste...também vou deixar de beber para estar mais aténto às...cénas!

PS: Já saquei os sisos...

pedro elias disse...

tantos comentarios! abracos e beijos!

antonio, nao esta' nada planeado, nao devo fazer nada. o plano era viajar...

Anónimo disse...

Caramba sobrinho,palavra que tenho um niquinho de inveja! Mas agora......tarde piaste (como diria o teu Avô!!!!). Adorei ler-te outra vez, sempre . Cuida de ti Beijinho PS Tenho arroz doce e leite creme à tua espera.