26.6.12

o regresso ao Japão


Bonsai,

Estou em Tóquio. A acreditar no que está aqui no blogue, já não é a primeira vez. O super-plano é ir daqui a casa, sem voar, como fiz em África. Passar para a Coreia, China, Mongólia, Rússia, até à Madragoa. Mas, mesmo os super-planos falham e este não depende só de mim. Vamos ver.

Entretanto, vou seguindo o meu eterno lema de viajante, Sempre que possível, junta-te a eles, que acabei de inventar e portanto admite futuras melhorias, e decidi experimentar o machismo japonês, mais concretamente, apalpar mulheres nos comboios. Alguns têm carruagens exclusivas para donzelas e não é preciso ser um génio machista para perceber que as que viajam nos vagões comuns querem algo. Aposto que neste momento está alguém a dizer "és um estúpido, são todos iguais!", mas daqui não oiço, o Japão é bastante longe. Como tal, tenho-me comportado como um autêntico macho samurai, passo dias a distribuir apalpões com uma precisão e rapidez estonteantes. "Ahhh, isso deve ser agradável", pensa o leitor. Pois, não é tão bom quanto isso. Se é verdade que o lado altruísta de apalpar alguém que o anseia pode ser compensador, a realidade é que sendo uma sociedade extremamente avançada, onde os habitantes se vestem como nos filmes de ficção científica, o uso de tecidos sintéticos é generalizado, e é de conhecimento geral que esfregar a palma da mão suada em poliéster não é particularmente gratificante, como seria, por exemplo, numa boa peça de algodão. "Ehhh, és um sortudo e só te queixas", pensa o tal leitor. Não é bem assim. É um facto que me queixo muito, sou lusitano e tenho-o nos genes, mas, já que este é um blogue sobre o mundo e as suas particularidades, é importante mostrar que os prazeres a que nos habituámos em casa não devem ser tidos como certos em outras partes do globo. Este é um deles. O leitor acena em agradecimento pela informação recebida, e continuo sem ouvir a gaja que me chamou estúpido.

Mais queixas… Tem chovido. Ao que parece, é o fim da época da chuva, o que, para nós, pouco significa. Em Portugal chove quando calha. Mas é como estar na época da azeitona, é uma altura certa do ano em que caem coisas do céu. Nos últimos dias melhorou, mas houve alguns em que caia tanta água que parecia um tsunami. Deixei de usar esta oportuna observação junto dos locais. Não se irritam, mas ficam tristes, calados, choram uns minutos, e não há paciência para meninos chorões. Meninos chorões e brasileiros, claro. Por falar nisso, aqui é sumo, não é suco. Toma.

Os preços são de morte. A alimentação não é o pior, mas os transportes, as entradas em museus, bares, os vícios e o alojamento é demais. Ficava três meses em Tóquio mas assim não duro uma semana. E tenho dormido em beliches de terceira onde pior do que o preço, a falta de privacidade, o barulho, cheiros e etcetera, é nunca saber se se está a sentir um terramoto ou se é o habitante da cama de baixo a mudar de posição. Por vezes, a meio da noite, chego mesmo a perguntar à criatura, "Mexeste-te??", ao que ele responde, "Pela décima vez, pára de me chatear", "Desculpa", digo eu sem o sentir, e continuo no paleio, "É que parecia mesmo um IV na escala de Mercalli, e, como turista, é uma experiência que não quero perder. Vir a Tóquio e não sentir a terra abanar é como ir a Nova Iorque e não ver as torres gémeas. É tão único como apanhar com a porta de um táxi. Acontece-me muito. Baixo-me para perguntar se o fogareiro está livre e apanho com a porra da porta na fuça. Esqueço-me sempre que aquela porcaria é automática. Já te aconteceu? É lixado". Por esta altura os outros animais do quarto repetem em coro, "Xate da faque ape", mas ando sem sono, é do jetlag, e sabe-me bem falar um bocadinho.

É bom voltar ao Japão, a Tóquio. Há diferenças que pensei não ia notar. Eles continuam os mesmos pequerruchos sorridentes e tímidos que comem golfinhos ao pequeno-almoço, mas depois de tudo o que aconteceu nos últimos anos é natural que qualquer coisa tenha mudado. Mas acabei de chegar, depois escrevo sobre isso. Eu, como passeador profissional, também mudei. Talvez por não ter prazos, estou menos impaciente, não tenho a urgência ou necessidade de ver, de experimentar tudo. E, numa cidade que está sempre em movimento, é um enorme luxo poder parar, não fazer puto, e descobrir japonesices com calma.

Beijos