25.7.12

Japão e Coreia do Sul


Ora viva,

Estou no mar. No Amarelo, segundo consta. E não está fácil, o chão abana, daqui a bocado borrifo qualquer coisa. 
Saí de Incheon, na Coreia do Sul, ontem, e faltam umas horas, daquelas que parecem anos, para chegar a Qingdao, algures na China.

Não tenho andado nada bem. Há uns dias comecei a sentir-me estranho, fraco, com princípios de camoecas, e fui a um médico que, em coreano perfeito, para que não me escapasse nada, disse, "Sr Elias, tem uma tendinite no baço". "Ai maezinha! Já fui", pensei logo. Desconhecia este tipo de tendinites mas o senhor mostrou-me as suas notas sobre os exames realizados e, apesar de não as perceber, vi que era um profissional experiente, de toda confiança. É que tal como os nossos médicos, escrevia em riscos, e quem transforma estes caracteres em linhas rectas não é um novato qualquer. 

Receoso, perguntei: "Quanto tempo tenho, Sr Dr?". "Lamento informar, mas tem uns 5 minutos. 10, no máximo". "Quê? Só? Caramba, tinha tanto por fazer, tanto por experimentar. Nunca bati num espanhol, imagine", desabafei desesperado. "Pois, sabe, é que marquei uma consulta para agora e o paciente já está à espera. O espanhol terá de ficar para a próxima visita". "Ufas, assustou-me. Mas diga-me, isto é falta de potássio, não é? Tenho comido poucas bananas". "Não, disparate. Isso é falta de Japão", diz sorrindo. "Ahhh. E tem cura, Dr?". "Ora bem...", murmurava ele enquanto passava a receita, "Primeiro, para as dores, chore, chore muito, ajuda. Para tratar a tendinite, tem duas hipóteses: plantar batatas ou voltar para o Japão"."Mas não posso plantar batatas, dá-me umas pontadas nos rins por andar baixado, e com o baço neste estado, é impossível. Ir ao Japão, é o mesmo. Já me despedi das pessoas japonesas, antes morrer do que voltar atrás com a palavra. A minha palavra é a minha honra, e só tenho isso e três pares de cuecas". "Então, chore", diz ele. "E veja lá, não reze, é uma perda de tempo". 
Como os homens não choram, imaginam o meu sofrimento nestes dias. Sou um homem muito triste.

Nunca tive uma atracção especial pelo Japão. Conheço pessoas que sim. Assim como alguns gostam da América, dos hambúrgueres, há gente que em bebé rebolou em sushi e adora tudo o que é japonês, mesmo sem nunca lá ter estado. Uma boa metade delas ainda cheira a peixe.


Uiiii… pausa. Tenho de ir olhar para o horizonte. Continuo mais tarde.
Voltei. Três dias mais tarde. Quando desembarquei, meio mareado, decidi beber uma cerveja para desenjoar. Depois de ter pago 26 cent (2 yuan) pela primeira caneca, lembro-me de muito pouco. Estes sacanas até vendem cerveja a peso, em sacos de plástico com pegas, e bebem aquilo por palhinhas. Pelo menos não perdi as calças. Estou a evoluir. Mas devo ter comido coisas estragadas, hoje não me posso afastar mais de dez passos da toalete. Aproveito para acabar isto. E sinto-me melhor da tendinite. Bem bom.


Ia no Japão...

Eu não ligo ao sushi, nunca liguei, sou de outros sabores, e o cheiro a peixe é de não me lavar cá em baixo.
Há uns 20 anos os meus pais tinham carro japonês, um Mazda 323, que, dependendo do lado que batesse o sol, ou era verde ou azul. Até aos últimos dias, quando já cresciam cogumelos nos tapetes, nunca falhou. Impecável.
Mais ou menos na mesma altura, vi o Império dos Sentidos na RTP2. Lá calhou. A partir daí os japoneses ficaram os tipos certinhos com uma pancada meio estranha, mas nunca mais tive grande curiosidade pelo o país, interessei-me por outras coisas. Até que lá fui, mais ou menos por acaso, em 2009, e fiquei morto por voltar. 
Gosto das pequenas excentricidades, dos pormenores, das soluções geniais para as coisas simples do dia a dia, do sentido estético único, de uma busca pela perfeição, até das vénias, da atenção. E ao mesmo tempo tem piada saber que eles estão cheios de falhas, longe dessa perfeição. São gajos que já cometeram todas as atrocidades que encontramos nos livros de história, têm páginas só deles, e continuam a cometer algumas. Os seus vizinhos são os que mais o sentem. Se a nós, ao homem branco, tratam bem, baixam a cabeça, é porque apanharam umas lambadas até ganharem respeito. Começou com bêbados portugueses que desembarcaram em Nagasaki com umas espadas que cuspiam balas, até aos americanos, com outras balas. Mas aos coreanos e chineses olham bem de cima, em bicos de pés, e estão sempre prontos para lhes passar a perna. Ainda no século passado a Coreia foi declarada uma colónia japonesa, quando as nossas já começavam a perder o interesse, e a China foi invadida. 

Mais do que qualquer outro povo, eles têm uma capacidade de se juntar por um objectivo único, como um rebanho, não questionando as razões, a autoridade, e isso tanto os torna perigosos como capazes de, em poucas décadas, como aconteceu depois da última grande guerra, reconstruir o país.

Foi um pouco isso que eu notei desde a última visita. Principalmente em Tóquio, estão mais focados, concentrados, mas talvez menos expansivos e alegres. Nestes anos, a crise económica agravou-se, tiveram o sismo, tsunami, fuga de radiação de uma central nuclear, e no entanto ninguém me falou sobre isso, muito menos se queixou, e estive Sendai, a cidade mais próxima do epicentro. Parece que sabem o que têm de fazer para recuperar, e que não é com conversa que lá chegam.
Não sei se já há resultados, pouco tenho acompanhado as noticias, mas este ano Tóquio foi considerada a mais cara cidade do mundo, e talvez isso já seja um sinal da recuperação. Ou não, pode tornar-se uma Luanda.

Esta conversa não me faz bem nenhum à tendinite. Um dia destes, volto.


A Coreia é outra história.
Não gostei da Coreia. Sei que estou a dar cabo do turismo deles, mas azar, cê-lá-vi.
É um país com muitas influências do Japão e da China, mas é 73 vezes menos interessante do que ambos. Não é um sítio porco nem limpo, não é caótico nem organizado, as pessoas não são brutas nem muito educadas,… É assim assim. Está no meio, como a virtude, a última coisa que um viajante procura.
É fácil compreender isto pelos carros. A industria automóvel de um país pode dar algumas indicações sobre quem lá vive (Em Portugal construímos carros alemães). Nunca se ouviu: "Olha este Hyundai, que maquinão!", ou "O meu sonho sempre foi conduzir um SsangYong." Mas ouve-se, "Olha um Kia, tem uma estética agradável e uma boa relação qualidade/preço". São aborrecidos.
Agora, com a Samsung e a LG, estão no topo das comunicações móveis, da electrónica mundial, mas nunca houve paciência para os cromos dos computadores. São úteis, como as panelas, mas só servem para aquilo.

As influências já não são só chinesas e japonesas. Em Seul, principalmente nas zonas universitárias, os catraios de vinte e poucos anos são todos iguais, tudo o mesmo. São aquelas pessoas que depois de terem tudo o que precisam, de comprar o que não precisam, começaram a consumir coisas que não gostam. É uma tendência global. É a malta que vai passear os macbooks para os Starbucks e afins - sítios que vendem café a quem realmente não gosta de café -, onde se ouve uma coisa atroz chamada smooth jazz - música para quem não gosta de música -, e conduzem, ou gostariam de conduzir, Toyotas Prius - os carros para quem não gosta de carros. Esta lista continua, e as marcas não param de crescer, é o negócio delas. Visita-se o Starbucks em vários países, em vários continentes, e não é facil descobrir diferenças na maneira vestir, de estar, dos clientes. É uma seca.

Chega de Coreia. Não é especial. O Japão e a China, sim.


Vou passar o resto do dia a aprender a escrita chinesa. Usarei um método revolucionário, rápido e simples, que me lembrei há minutos quando carregava nos botões de um elevador. Eu explico.
Há muitos milhares de anos os habitantes da Ásia eram cegos, tinham os olhos fechados, as pálpebras coladas, eram conhecidos como "os alforrecas", e, naturalmente, o sistema de leitura que usavam era o braile. À medida que foram evoluindo, abrindo do olhos - processo ainda não terminado, estão na fase que cientificamente se designa por ponto ganza -, houve uns iluminados que pegaram numa esferográfica e no alfabeto braile e começaram a unir os pontos. Um processo não muito diferente dos desenhos que as crianças fazem, unindo pontos numerados até formar um coelho ou uma vaca. É fácil perceber que, por exemplo, de se chega a . Por ser o início e terem total liberdade, apareceram uns artistas que juntaram várias letras braile e fizeram rabiscos desnecessários, complicando tudo, e criando os complexos caracteres usados actualmente. Mas a base é só uma, o braile, e é simples, até um cego entende. Estudando-o profundamente, chegarei ao significado dos gatafunhos chineses, e depois é um passo até começar a falar. Tenho quase a certeza que funcionará.

Teresa, parabéns. És a maior.
Beijos


5 comentários:

JE disse...

Muito bom, fiquei elucidado.
JE

Anónimo disse...

Forte!!! Adorei o teu voo...! quase direi... voador.. realmente andas pior que as andorinhas.
Um abraço...Beta e Marco.

teresa disse...

Obrigada, com uma semana de atraso.Tu e os teus primos é que são os maiores.Os MAIORES sobrinhos do mundo.Continua a tua viagem pelo mundo...Continua a voar...A voar muito alto...Melhoras para a tua tendinite.Beijitos...Teresa

Joana Ferrao disse...

Post fantásticoooooo! Beijinhos e saudades primaço! Boas viagens. O teu primo vai charmar-se Alexandre :)

Joana Ferrao disse...

Eu ando sempre a reler os teus posts, e agora reparei no meu comentário....é pá - já passou tanto tempo. Xiça! Beijinhos :)