6.1.15

egipto, outra vez



Olá da terra onde os gatos são sagrados.

Voltei. Estive aqui há três anos, quando desci até ao Cabo, e o plano é o mesmo, mas o orçamento não, apertou. Devo descer o Egipto, o Sudão, chegar à Etiópia, e depois se vê. Se poupar muito e roubar alguém, talvez vá até lá abaixo. A viajar não é importante saber onde acabo, qual o destino, o interessante é o caminho para lá chegar. É como a vida. (Tumba! Lições de vida do Pedrinho - Compilação das frases mais bonitas, Vol 2)

O Cairo continua velho e castanho, coberto de pó e fumo, maravilhoso. Há outras cidades muito feias, como Jacarta e Chennai, mas não têm piada. O Cairo tem-na toda, é um feio com charme. É como se o propósito das 20 milhões de pessoas que cá moram fosse garantir que a cidade fica bem ao lado das pirâmides, que tudo pareça pertencer à mesma época. Eles fazem-no bem, com pinta. E continua confuso e barulhento. Quando acordo e oiço as constantes buzinas, o primeiro pensamento é que o Benfica ganhou o campeonato outra vez. Sempre, não falha. 
O pior é que se vê cada vez menos Peugeots 504, a minha viatura favorita de todo sempre, aos poucos substituídos por carros coreanos todos iguais, que, julgo, são oferecidos quando se compra um telemóvel. Chegava a apanhar taxis 504 só para dar uma volta. Havia tantos. Agora, anda-se de Samsung. 
Vou ficar mais uns dias, depois é para sul.

Descer África, por terra, em transportes maus e com alojamentos piores, onde não se encontram daquelas pessoas que se cumprimentam só com um beijinho, foi uma das coisas mais difíceis que fiz, foi uma brutalidade, mas valeu a pena. A outra coisa foi passar a ferro três camisas, que acabaram na 5àSec. Então, custou tomar a decisão, fazer a mala e partir. 
Se da primeira vez tive medo por não saber o que ia encontrar, agora tenho porque sei. Estou a falar, principalmente, das aranhas africanas, claro. Daquelas gordas que não morrem com o normal golpe de chinelo. Estúpidas. O pior é à noite. Já partilhei o quarto com baratas, ratos do tamanho dum palmo e pessoas bem feinhas, e, depois de fechar a luz, acabo sempre por dormir. Se aparece uma aranha peluda no tecto e se esconde antes de lhe atirar uma cadeira, é o fim, nem com o Vitinho. Uma vez, desisti, fui para o bar do hotel e adormeci bebedo ao balcão. Acordei já era dia, foi óptimo. E não fui o único. Pelos vistos há mais gente com pavor a aranhas. Bicho do demónio. 
Mas, desta vez, vai ser fácil. É a segunda. Lembro-me onde os autocarros param, lembro-me das fronteiras, das terras e zonas complicadas. Desta vez não vou ter histórias para contar, nada de confusões, apanho a auto-estrada. Não há aranhas na auto-estrada. A minha mãe, que tem 82 anos, não tem nada com que se preocupar. Ouviste? 
É mais fácil, também, porque devo encontrar a internet em qualquer canto. Graças a Deus, o wifi e os smartphones espalham-se mais rápido do que a palavra do Senhor, então posso mandar uma mensagem rápida quando preciso de partilhar, por exemplo, que as varejeiras dão luta a passar na garganta, arranham, assunto que normalmente não interessa a com quem me cruzo. Aqui, quando alguém sabe inglês, falo do Ronaldo e do Mourinho, de bola. É muito tempo sozinho e estás tretas novas ajudam. Mas é um sozinho diferente, africano, sem dramas. Vou explicar com uma história, e acabar, já vai longo.

Da última vez, no sul da Etiópia, naquela zona onde as pessoas só conhecem uma marca de arroz, o carolino USAID, apanhei um autocarro apertado durante 20 horas. Arrancou e, como no metro, meti os olhos na paisagem e a música nos ouvidos. Mas, uns minutos depois, a curiosidade do tipo do lado rebentou e passei-lhe os auscultadores. Passei também ao tipo de trás, ao da frente e ao pendurado na porta. Quando cada auscultador já tinha cera suficiente para envergonhar Fátima no 13 de Maio, decidimos partilhar aquilo com todos. Braço no ar, telemóvel no máximo e pouco paleio. Andava a ouvir o El Camino, dos Black Keys, que tinha semanas, e tocou umas 4 o 5 vezes, o suficiente para metade do autocarro me conseguir acompanhar quando cantava "I'm a lonely boy, I'm a lonely boy,...". Nessa altura, mesmo não podendo partilhar esta ramboia toda com ninguém (nem nos dias seguintes), a letra da música não fez grande sentido.
Desta vez, venho preparado. Raios ma partam se não cantar o "Azar na Praia", do Nel Monteiro, com coro africano móvel. Vai ser lindo.

E pronto. Bom 2015, adeus, é hora de ir sacudir o papagaio. Hoje faço anos. Muitos. No ano passado só me saíram duques, o que não é o fim do mundo, são tantos que é natural apanhar alguns com lagarta, então é bom começar este aqui, um sítio onde sou sagrado, e ter pela frente uma data de países onde ainda se usa papel químico. 


8 comentários:

Maria Simões disse...

Grande Pedro! A escrever cada vez melhor! Teresa Balesteros

Marcel Antunes disse...

Vai pondo noticias por cá, e se conseguires ir até la abaixo ao Cabo numa altura que eu esteja em terra bebemos uns copos outra vez. Parabéns e um abraço. :)

amélie disse...

gostei de te ler rapaz, da noticias da tua vida... beijos grandes!

Asma Belqrif disse...

Parabéns Pedro e uma boa viagem (deixe-se de cagufas!! Coragem aí :D)

António disse...

Boa viagem e Parabéns! Com Ronaldo e Benfica tens as portas sempre abertas :)

andreia disse...

Parabens lonely ranger :)
boas viagens sempre com algum cuidado e juizo!
bjs
andreia

2 de Três disse...

Tão bom :) o que eu já me ri.

Beijos

Anónimo disse...

Ohhh Pedrinho já tinha saudades de ler os teus relatos!!! :)))) AHHHHHH beijinhos
Olga