31.1.15

o sudão



Buongiorno principessas, 

Estou em Cartum, a única capital da República do Sudão. É inverno e está um calor dos tomates. 
Sei que alguns acham desnecessário, deselegante, começar assim o texto, mas estou tão contente por poder usar a minha expressão preferida - calor dos tomates-, numa das duas variantes, que não resisto. Sou fraco, e pouco elegante. Se calhar é asneira, mas fica assim.

Estão 38 graus à sombra, por exemplo, de um prédio.

Depois do Cairo,  passei 4 dias em Dahab, uma cidade pequena na península de Sinai, onde vi um aquário gigante quando enfiei a cabeça no mar e onde senti o cheiro a dinheiro da Arábia Saudita, a 16 quilómetros, do outro lado do golfo de Aqaba. Cheirava a gasóile. Há outros dinheiros com outros cheiros.

A seguir, fui para Assuão, no sul do Egipto, junto ao Nilo, que é uma coisa tipo o Guadiana mas que se desloca em sentido contrário. Para minha alegria, Assuão continua com uma bela frota de táxis e mal tirei os pés do comboio, enfiei-os num Peugeot 504 bem bonito.

Desde a revolução de 2011, os turistas fugiram para países com menos noticias nos jornais e estas cidades perderam a sua principal receita, estão decandentes e tristes, principalmente Dahab.

A passagem entre Egipto e o Sudão está, deste há pouco mais de um ano, mais fácil. Em vez do barco semanal, onde viajei há 3 anos, agora há autocarros diários e a viagem é mais cómoda e rápida, apesar de ter demorado 14 horas em vez das 5 anunciadas - é um Bem-vindo a África. Ainda se cruza o lago, só para matar saudades, e, apesar do óptimo aspecto exterior, o autocarro vai cheio até ao tecto, como ia o barco.

O Sudão.

Quando anunciei que vinha ao Sudão, a reacção geral foi "uuuuhhhh cuidado" e um olhar como se o mundo, o meu, acabasse. Algumas pessoas chegaram perguntar se podiam herdar as minhas guitarras. Uma amiga, a Carla (nome fictício), até teve um mau pressentimento em relação a esta viagem e anda muito preocupada. Tem estes pressentimentos desde criança, é a sério. Curiosamente, oferece-me sempre um bilhete de lotaria no aniversário e nunca vi um chavo. Também os tenho, os pressentimentos, ou algo parecido. É verdade. São estranhos. São para daqui a 400 anos, não servem para nada. Coincidência, estou a "receber" um. Aqui está: No ano 2415, por volta das 3 da tarde, um arqueólogo vai escavar a sepultura do Álvaro Cunhal e morrerá subitamente com um ataque cardíaco. Morrerá de susto, por ver uma caveira com sobrancelhas. Era só isto. Percebem porque é que digo que este dom não serve para nada? Mal não faz, mas é inútil.
Adiante.
Onde eu queria chegar é que a imagem generalizada que se tem do Sudão é errada, é falsa. Com maus pressentimentos ou sem eles, viajar aqui é dificil e as probabilidades de ter um acidente ou apanhar uma doença horrível é, como em qualquer país muito pobre, maior do que no nosso cantinho. Mas, e esta é a parte importante, se acontecer, ainda bem que é aqui porque me ajudam de certeza. Estes gajos são porreiros (foi o melhor que consegui - gajos porreiros. parou o cérebro). Pronto, são sérios, simpáticos e simples. Têm os 3 's'. Não posso dizer o mesmo em relação a muitos sítios onde passei. Muitos sítios ricos.
E, para um visitante, é seguro. É impossível viajar para as zonas de conflito e a criminalidade é muito baixa. Isso sente-se, e é um enorme peso que não se carrega na mochila. 

Mais. É um país muçulmano muito conservador, mas é ignorante associar o povo sudanês com terrorismo ou radicalismos islâmicos. Estas pessoas têm de trabalhar muito para comer, não têm tempo para andar a correr atrás de infiéis, isso é um desporto de ricos. Há desses ricos aqui, assim como em Paris, por exemplo, e ninguém deixa de visitar a torre porque tem medo deles. 
Como em todo o lado, não é tudo preto ou branco. Os dois homens com quem divido o quarto, um veterinário e um que não fala inglês, juntam-se com amigos e bebem sumo de romã fermentado. Chamam-lhe "cherbot", e é péssimo. Bebem às escondidas, como miúdos, com o sorriso maroto de quem está a fazer o que não deve, porque aqui é proibida a posse e o consumo de álcool. E rezam várias vezes ao dia, como bons muçulmanos, mesmo ao fundo da minha cama, a centímetros dos meus pés. Têm tanta paciência para fundamentalismos como eu, não o podem é dizer muito alto. Esse é o problema. Liberdade de expressão, liberdades, nicles batatóides.

Para os turistas é o mesmo. Há regras, muitas, há registos obrigatórios na polícia, licenças para viajar, para fotografar, e quem não as cumpre vai preso. Vai mesmo.
Os senhores que têm o poder não o querem perder, e isso significa controlar tudo e todos. E depois exercem-no à bruta para não terem chatices no futuro. 
Sem esses tipos não seria um país ideal, entre outras coisas, tem o termóstato partido e igualdade de género e de culto é uma anedota, mas seria muito melhor. 
Às vezes penso assim. Imagino como ficariam os países se lhes alterasse algumas características próprias. Por exemplo, imagino sempre o Brasil sem brasileiros, com outros gajos. Era perfeito. É recorrente sonhar com Pedro Álvares Cabral a chegar agora às Américas e ouvir da praia "Oi galera, tudo jóia?", e rapidamente gritar para a tripulação "Dar a volta, vamos embora, esta fica para Castela". Depois virar-se para terra, "Caravela, burro!"........ "Oi?". É um sonho, claro.
Enfim, o mundo é como é, e é interessante por isso.


Isto já vai demasiado longo. Segundo a Carla, é provável que não volte a escrever, então tinha de deixar o último sermão.

Se alguma vez sonharam dizer "Desculpe, tenho de ligar urgentemente para o Sudão", força, +259 992815486, é o meu número sudanês (nunca imaginei que diria isto na vida). Atendo sempre com "Salamalecum?".

Espero que esteja tudo bem na terrinha. E, mesmo que o tempo esteja cinzento, muita chuva e um frio dos tomates, alegrem-se, o Bob Dylan tem um disco novo.
Vou fazer uma mise. 
Beijinhos




7 comentários:

Anónimo disse...

Hei, este ano foi uma raspadinha!!!
Sim, sou bruxa, mas só pressinto coisas más. Azarito! Nasci com este dom...ou deficiência, quem sabe. Não tenho bola de cristal nem sei ler as borras do café, só sonho e tenho arrepios na espinha e desta vez tive muitos quando te foste embora. Se calhar estava constipada.
Bonne Voyage :)

Anónimo disse...

Ehehehehhehe

Ass: Cristo (nome fictício)

Anónimo disse...

As guitarras são para mim, disseste-o de livre vontade, num cantinho q se diz democrático.
Salamalecum!
Ass: el emigrante

Anónimo disse...

El Emigrante, para tua segurança, é melhor que o teu nome português seja Mick Dundee. Caso contrario vamos ter problemas. As guitarras são para mim e até deixei crescer as unhas...

Ass: John McClane

Anónimo disse...

Jone macleine, as minhas unhas sao sagradas, ainda ontem fui à manicure, so toco com palheta. As unhas servem para limpar as orelhas, o nariz e para fazer sons irritantes para o resto do pessoal.
As guitarras foram-me doadas em vida, num momento raro de abstinência pre-borracheira. Ha testemunhas, tb eles em pre-borracheira.
Nao ha estado islamico que possa modificar este facto.
Ass:EE

Anónimo disse...

Caro Ernest Emingway, abdico das guitarras se não me chatear com o aquário...! Dá-me jeito para fazer cerveja caseira...

Ass: Bruce Willis

Anónimo disse...

:-) que bom saber que tas bem! Que inveja do aquário! Bjcas