23.2.15

do cairo a harar



Ora viva,

Não estou de muitas conversas, isto vai ser curto.
Acabou a vadiagem. Faltam umas horas para voar, ainda posso ser atropelado, mas até agora correu tudo bem. Houve alturas mais difíceis, encontrei algumas pessoas parvas e saí morto de muitos autocarros, mas, como sempre, lava-se bem a cara e passa, esquece-se tudo, a viagem continua. 
Foram dois meses óptimos, principalmente os dias no Sudão, a terra estranha onde todos os homens se agacham para rezar e urinar. Dois meses que pareceram seis, porque aqui os dias demoram a passar, as semanas não acabam.
Na quinta-feira, em Harar, onde a Etiópia se encosta à Somália, fui atacado por um milhafre que quase me levou o telefone e dois dedos; chamei hienas numa lixeira e dei-lhes carne de camelo; enxotei bandos de espertalhões demasiado interessados no que tinha nos bolsos; apenas andei em carros com mais de quarenta anos, porque todos taxis são Peugeots 404, que deixaram de ser produzidos em 75; bebi canecas de cerveja por €0,40 com cristãos e muçulmanos na mesma mesa e nunca falámos de deus; passei a noite sentado na cama, com a luz acesa, para não ser comido pelos mesmos insectos da noite anterior; e, durante dez horas, fui esmagado por vinte e duas pessoas numa Toyota Hiace que preferia sempre o lado da estrada onde havia um precipício, talvez para ver melhor a paisagem.
Há uma bela música em que o Dylan diz que "o tempo passa devagar quando estamos perdidos num sonho", mas a verdade é que não tenho imaginação para sonhar com dias assim, tão cheios, tão longos. Preciso mesmo cá vir.
Não me importava que o avião se perdesse e aterrasse outra vez longe de casa, mas nem eu tenho tanta sorte. 
Beijocas.

2 comentários:

JE disse...

Desta vez foi curta a viagem mas parece que valeu a pena :)

NoKas disse...

Que fixe! Tenho sempre essa sensação do tempo que dura mais tempo quando viajo. É talvez das sensações que mais gosto e que cobiço nos meus dias, mas que raramente encontro.