8.7.17

Namíbia

Escrevi isto durante uma escala de dezassete horas em Angola. Estava a desesperar. Nem enfiei aqui. Às vezes acontece.
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(desculpem o tipo de letra, acabei de beber três cervejas)

Élou.
Estou no aeroporto de Luanda. Venho do Moçambique, fui lá passar o natal e os dias à volta, e vou para a Madragoa. Mas vou escrever sobre o verão. O meu, não a estação do ano. Nem toda a gente sabe o que fiz no verão passado.
Há uns quatro ou cinco anos, os meus pais, aqueles que não pude escolher, mudaram-se para Maputo, que é uma cidade na parte pobre do mundo. São velhos e nunca comeram vegetais então estão acabados, chechés, e, em vez de se inscreverem na hidroginástica, de comprarem o bilhete de época do centro de saúde e de coleccionarem o folheto do Pinho Doce, deu-lhes para isto, foram morar para um sítio com pó. Dizem que estavam fartos de me aturar, mas isso é pouco provável, eu sou adorável.

Éniuei, no meu verão, como já tinha mudado a água aos peixes, decidi visitá-los, dar-lhes uma alegria e ver o que lá tenho de herança. Sou filho único, é tudo para mim, convém ir controlando o património. Mas, espertalhão, comprei uma viagem de dois meses e tal e disse-lhes que só ia três semanas. Estive uns dias com eles no início e deixei mais alguns para o fim. No meio, tinha de pendurar cortinados, expliquei. Eles alertaram-me para que alguém segurasse no escadote e continuaram a matar mosquitos, a esvaziar o Baygon.
Durante esses primeiros dias tive a ajuda da minha prima Paula para os aturar. Vimos vacas estranhas em reservas na África do Sul e na Suazilândia e, depois, no Moçambique, comemos camarões e fomos ao mar, mesmo sendo inverno - à turista. Faltou-nos tirar selfies com crianças descalças para meter no facebook, mas trato disso mais tarde. São tão queridas, sem sapatinhos. Não vou escrever mais sobre o Moçambique porque arrisco-me a dizer bem daquilo e deixar a família contente. É escusado.
Quando larguei a prima e calcei as sandálias, fui para a Namíbia. É para lá que se vai.

A Namíbia é um país. Quando ainda era outra coisa, em 1400 e muito, uns marinheiros portugueses espetaram lá padrões, porque ainda não tinham inventado as tais selfies, e quatrocentos anos depois tornou-se uma colónia alemã. A seguir à primeira grande guerra passou a ser gerida pela África do Sul, que a acabou por anexar. Gostaram muito do sítio. Era arejado, bom para apanhar diamantes e para brincar ao apartheid.

Após anos de negociações e pancada, tornou-se independente, em 1990, ao som do hit do ano Nothing compares to you, e os seus habitantes viveram felizes para todo o sempre. No primeiro discurso à nação, o novo presidente, o Samuel, em voz doce, emocionado, cantou "Since they've been gone we can do whatever we want", claramente imitando a Sinead, e decretou que, a partir desse dia, as batatas fritas seriam grátis. Ninguém esperava, foi a pu@#€#@ta da loucura.

Não acreditem em tudo o que escrevo, por favor.
É melhor deixar o aviso. Se os autores das bíblias e dos corões tivessem perdido cinco segundos para escrever isto, as chatices que se evitavam. Os meus país estão mesmo acabadinhos. Essa parte é verdade.

Na realidade, nem todas pessoas na Namíbia parecem felizes da vida. Algumas precisam de um abraço. Nota-se. Talvez porque ainda sentem os efeitos de muitos anos de segregação ou porque o preço do ketchup quase triplicou para compensar a oferta das batatas, o que é fácil de perceber é que as condições de vida não são iguais para todos, a alegria não foi bem distribuída. As pessoas que nascem mais pálidas, que são a minoria, vivem melhor, com as carteiras mais cheias e em casas com bonitas vedações electrificadas. Em Windhoek, a capital, é ridículo, tudo dá choque, um gajo não se pode encostar a muro nenhum.

Não vou fingir que sei gerir um país, ainda por cima um país africano, já me basta ser o maior a hipnotizar carpas, mas, com uma população de 2,1 milhões que tropeçam em diamantes, aposto que a vida podia ser um pouco melhor para todos. No mínimo, o ketchup podia ser subsidiado.


Quando os alemães se instalaram no sul do país, perto de Luderitz, apanhavam os diamantes do chão, não precisavam de escavar. Exportaram centenas de quilos. Nas noites de luar, o chão imitava o céu estrelado. Conta-se. Actualmente, uma grande parte do território do país está completamente fechado para evitar que a malta entre com uma vassoura e faça a limpeza. Trouxe os bolsos cheios de pedras, claro. No aeroporto expliquei que eram para o lastro do avião, e que os líquidos, o champôm e o colgueite, estavam no saquito de plástico transparente. Deixaram-me passar. As pedras mais brilhantes escondi onde nada brilha, se é que me entendem. Depois, esqueci-me e perdi-as, se é que me entendem.

O Luís Represas é chato.
Comparada com todos os vizinhos, a Namíbia não está mal. Vi muitos pobres mas são não aos milhões, como é normal por estas bandas. Também não se vêem bandos de ricos. Não se vê ninguém, na realidade. A Namíbia tem a população da grande Lisboa espalhada pela França e Inglaterra. É o país com menor densidade populacional no universo conhecido - 2,5 pessoas por quilómetro quadrado, poucochinho quando comparado com Macau, para onde fui logo a seguir, com 18000. Não há gente. É um absurdo. Por exemplo, em Keetmanshoop, "a capital do sul", só me apareceu uma pessoa no Tinder. Uma. Pesquisei num raio de 100 milhas, que são uma data de quilómetros, e nada. Ou melhor, só uma. Não deu match. Estúpida. Queria ver o Adão safar-se com online dating.

Sonhava ter longas conversas românticas ao luar sem perceber nada, mas nada feito. A língua oficial é o inglês, mas a maioria decide ignora-la porque as línguas nativas têm mais piada, então esperava ouvir a Eva de Keetmanshoop falar-me em nama, com estalinhos e cliques e barulhos estranhos, horas a fio, e eu, feliz, respondia mascando e fazendo bolinhas com uma chiclete de morango. Pena, porque a lua da Namíbia é muito maior do que as outras.
Mais tarde, num café, estava a mascar a chiclete que tinha guardado para a Estúpida e trouxeram-me uma coca-cola. Devolvi, claro. Não bebo coca-cola, faz mal a alma. Nem com três pedras de gelo e meia rodela de limão, como insistiram que tinha pedido.

Por causa dessa falta de gente, há poucos transportes públicos. Não há público. Além disso, uma boa parte deles, os maiores, são nocturnos. À noite estou na cama. Só faz sentido fazer estas viagens longas se for com os olhos na estrada, a ver a paisagem. Caso contrário, voava.
A forma mais simples de viajar na Namíbia é alugar um carro (na África do Sul, é mais barato) ou ir num tour organizado. Como fiz, à boleia e em autocarros cansados, não foi fácil e não vi tudo o que os turistas lá vão procurar, mas saí sem sentir falta de nada. Fiz centenas de quilómetros em caixas de carrinhas pickup, a ver passar deserto e mais deserto; andei em táxis partilhados na costa dos esqueletos, com os olhos nas dunas e de queixo caído, com pessoas com o mesmo ar aborrecido que vemos do metro de Lisboa; e bati o meu recorde de velocidade numa Hiace de 30 anos - 145Km/h e 21 passageiros aos gritos de pânico e excitação. Lindo.

Num autocarro, depois de 8 horas sem me encostar porque o banco estava partido, o motorista deixou-me no meio de nada e deu-me um número de telefone - "Call this guy to go to town". I called e esperei, sentado, sozinho, armado com o corta unhas, no escuro e no frio. As noites no deserto gelam. Tanto frio que a camisola interior ficou gasta na zona dos mamilos. Horrível. Até que chegou o carro, só com um farol ligado, com um gajo de fato treino ao volante e a Celine Dion aos berros no rádio. Achei que o meu coração parava de medo. Ensinaram-me em pequeno para nunca confiar em adultos que andam de fato de treino. Nem em gajos de risco ao meio, mas não era o caso, o senhor tinha carapinha. Entrei e acho que desmaiei. Pelo menos, não me lembro dos primeiros 5 a 10 minutos da viagem. Quando reanimei, já ao som da Mariah Carey, percebi que o pobre homem, o Simon, estava de pijama, e eu, o Pedro, tinha-o tirado da cama. É sempre assim, nunca passamos de turistas com a mania que tudo é uma grande aventura. Uma aventura tão grande e perigosa que ele nem se deu ao trabalho tirar o pijama. Perigoso é ir a uma repartição de finanças. Aí não há coração que aguente.
Voltei a encontrar o Simon e a Celine nos dias seguintes, e a ouvi-lo gozar vezes sem conta com o meu ar maricas daquela noite. "What a pussy!". Não me importei nada. A verdade é que quando deixar de ser a pussy, passear assim não terá tanta piada.
No fim, levou-me a outro autocarro, direito à África do Sul, e voei para China, onde apanhei mais autocarros para lugares incríveis, que mesmo que me recordasse agora dos nomes, nunca conseguiria escrever.

Não parei durante um belo mês, até reencontrar os meus pais que só queriam saber a cor dos cortinados.

beijos